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Papa Bento XVI não representa palestinos cristãos, que sofrem com ocupação de Israel

gustavochacra

11 de maio de 2009 | 11h35

O Papa Bento XVI, que visita a Terra Santa, não representa os cristãos palestinos. Os árabes que seguem a religião cristã nos territórios e em Jerusalém Oriental são Ortodoxos em sua quase totalidade. Seguem patriarcas na Grécia, Armênia ou Antioquia. Minorias maronitas e melquitas completam a população cristã palestina.

Os principais símbolos religiosos do cristianismo tampouco são controlados por católicos. A Igreja da Natividade, em Belém, e a do Santo Sepulcro, em Jerusalém, são administradas de forma ecumênica por diferentes denominações cristãs. Cada uma delas domina uma parte destas igrejas. Coptas e Ortodoxos são os que possuem maior poder. Brigas são comuns, inclusive de socos e chutes, como aconteceu no ano passado.

Os católicos são representados pela Ordem Franciscana. Mais presente em Belém, são enfraquecidos em Jerusalém. Todas as sextas-feiras, organizam uma procissão na Via Dolorosa. Neste dia, os franciscanos recebem autorização para entrar no Santo Sepulcro. Os participantes, além dos frades, são turistas europeus e da América Latina

Os palestinos cristãos sempre foram associados à defesa da criação de um Estado palestino. O movimento palestino, no passado, teve líderes cristãos, como George Habash. Hanan Asharawi,braço-direito de Yasser Arafat, é cristã. A mulher do líder histórico palestino também seguia o cristianismo. Da mesma forma que Edward Said, célebre professor da Universidade Columbia e porta-voz dos palestinos no mundo acadêmico.

No passado, os cristãos já formaram parte expressiva da população palestina, sendo maioria em Belém e Ramallah. No final do século 19 e começo do 20, começaram emigrar para a América. Se no Brasil a maioria dos imigrantes árabes é libanesa e, na Argentina, é síria, no Chile os árabes são palestinos. Em São Paulo, existe o clube Monte Líbano. Em Santiago, os árabes frequentam o Palestino, que chegou a ser campeão chileno de futebol nos anos 1980. O presidente de El Salvador, Antonio Saca, é de origem palestina cristã.

Um segundo momento de redução da população cristã palestina ocorreu durante a criação do Estado de Israel. Milhares de palestinos cristãos foram expulsos pelos israelenses ou saíram por vontade própria, dependendo do caso. Ainda há hoje no Líbano um campo de refugiados palestinos majoritariamente cristão. Os que tiveram condições partiram para os EUA, Canadá, Chile e América Central.

A ocupação israelense da Cisjordânia e também da Faixa de Gaza acentuou o fluxo de palestinos para o exterior, especialmente durante a segunda Intifadah. Cristãos de Belém passaram ser impedidos de cruzar para Jerusalém sem autorização do governo de Israel. Para complicar, no mesmo período, o Hamas cresceu nos territórios palestinos. A convivência entre muçulmanos e cristãos palestinos passou a ser ameaçada, apesar de não ter havido grandes choques. O problema maior, em lugares como Gaza, foi o temor dos cristãos de terem as suas liberdades restringidas.

Jihan Abdallah, uma jovem repórter palestina cristã de Jerusalém, descreveu para mim como é complicado viver na cidade sagrada pelas três religiões. Nas partes judaica, ela reclama de sofrer preconceito por ser palestina. Tem muitos amigos muçulmanos, mas reclama um pouco do conservadorismo religioso de alguns deles. De qualquer forma, assim como quase todos os cristãos palestinos, se sente bem mais à vontade com os muçulmanos do que com os judeus. Não por motivos religiosos. Mas por questões nacionalistas. Todos são palestinos, enquanto os judeus são israelenses. Como os muçulmanos, ela enfrenta quase semanalmente filas no checkpoint de Qalandia, para ir de Ramallah a Jerusalém, ou então para ir à missa aos domingos em Belém.

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