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Papa chega ao Líbano, o último oásis cristão no mundo árabe

gustavochacra

14 de setembro de 2012 | 11h48

O Papa Bento XVI visita o Líbano exatos 30 anos depois do massacre de Sabra e Shatila e em meio a uma onda de protestos no mundo árabe e islâmico contra um vídeo idiota de quinta categoria que insulta o Profeta Maomé.

Três décadas atrás, dias depois de atentado que matou o recém eleito e jovem presidente cristão, Bashir Gemayel, seus seguidores falangistas decidiram se vingar dos palestinos, majoritariamente muçulmanos sunitas. Havia a suspeita, nunca confirmada, de que eles estivessem por trás do assassinato.

Os alvos escolhido pelos cristãos foram os campos de refugiados de Sabra e Chatila, no caminho para o aeroporto de Beirute. Eram e são quase favelas, onde os palestinos são tratados como cidadãos de segunda classe. Na época, tropas israelenses ocupavam a capital libanesa e eram aliadas dos falangistas. Decidiram, portanto, abrir as portas para os militantes cristãos libaneses entrarem e realizarem a sua vingança (recomendo o ótimo filme Valsa com Bashir para entender, ou os livros de Robert Fisk e Thomas Friedman).

Cinco anos atrás, estive em Sabra e Chatila e entrevistei sobreviventes. Também conversei com ex-militantes cristãos envolvidos no massacre, sendo que alguns deles tinham fluência em português. Em 1982, eram jovens falangistas, nas faixa dos 20 e poucos anos ou até menos. Estes militantes cristãos massacraram centenas ou até mesmo milhares de palestinos, incluindo crianças e mulheres, com requintes de crueldade. Estupravam, cortavam os membros antes de matar. Queriam ver o sofrimento, a humilhação daquelas pessoas.

Os próprios israelenses entraram em choque com o que ocorreu dentro do campo. Os cristãos destroçaram os palestinos. Toda a comunidade internacional culpou Israel, embora o massacre tenha sido cometido por cristãos libaneses. Ninguém nunca foi preso pelo episódio no Líbano.

Hoje, mais uma vez, observamos guerras sectárias no Oriente Médio. Os cristãos iraquianos, aliados de Saddam Hussein, precisaram fugir depois da queda do ditador. Apenas a Síria os recebeu, enquanto outros países fecharam as portas e os EUA os ignoraram. Agora, estes cristãos e também os sírios de origem cristã são associados ao regime de Bashar Al Assad. Se ele cair, sofrerão.

A oposição extremista sunita, amparada pelo Ocidente e outros países árabes, possui facções ligadas à Al Qaeda, os islamofascistas. Os alvos, claro, são cristãos, assim como os alauítas, uma vertente moderada do islamismo, à qual pertence Assad. Isso, que fique claro, sem esquecermos os massacres e crimes contra a humanidade cometidos pelo regime sírio e perpetrados muitas vezes por alauítas e cristãos contra os sunitas nos moldes de Sabra e Chatila. Ninguém tem razão em um conflito sectário, lembrem disso. Matar por religião é imbecilidade.

No Egito, os coptas, antes proeminentes na época da monarquia, vêem sua situação se deteriorar progressivamente. Eram perseguidos mesmo nos tempos de Hosni Mubarak. Agora eles, que representam 10% da população, estão desesperados com a chegada da Irmandade Muçulmana ao poder.

Verdade, o presidente Mohamed Morsy diz defender os cristãos. Mas facções, especialmente os salafistas, têm atacado os coptas. Para complicar, o vídeo imbecil foi feito, aparentemente, por um cristão copta da Califórnia. Em Los Angeles, estarão seguros. Mas em Alexandria, não.

Mesmo 30 anos depois de Sabra e Chatila e do massacre de Hama, na Síria, o mundo árabe permanece sectário e violento. Às vezes, parece que nada mudou, mesmo com o fim de ditaduras como a de Muamar Kadafi, Abdullah Saleh, Ben Ali, Saddam Hussein e Hosni Mubarak.

O medo é que, em alguns anos, não tenhamos mais populações cristãs relevantes fora do Líbano. Afinal, não podemos esquecer, os judeus, antes numerosos em cidades como Aleppo, Bagdá, Cairo, Sanaa e Alexandria, foram obrigados a ir embora. Uma enorme e irreparável perda para o mundo árabe.

IMPORTANTE – O Papa não é a maior autoridade religiosa para muitos cristãos do mundo árabe, como os coptas, os assírios, os grego-ortodoxos, os caldeus, os armênios, os siríacos e outros. Mesmo os cristãos maronitas e melquitas, que se identificam como católicos, têm seus próprios patriarcas. Praticamente não existe católico romano no mundo árabe

DESCULPA – Infelizmente, ontem, não tive condições de responder aos comentários

– No rádio Estadão/ESPN, às 18h20, comento as ELEIÇÕES AMERICANAS

– Na TV Globo News- às 20h, participo do Globo News Em Pauta falando de política internacional

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

no twitter @gugachacra

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