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Para Israel, questão nuclear iraniana é mais importante do que palestinos

gustavochacra

04 de maio de 2009 | 09h50

Até pouco tempo atrás, o principal temor dos israelenses era o risco de um atentado suicida em um café ou ônibus. Hoje, a maior parte dos habitantes de Israel considera o Irã o risco mais grave para existência do Estado judaico. O próprio governo já tenta alterar a foco da questão do Oriente Médio de Israel e palestinos para Israel e Irã. No primeiro caso, os israelenses teriam obrigação de agir, com o fim da colonização ilegal da Cisjordânia e da prisão em Gaza, onde os palestinos não podem controlar o espaço aéreo e marítimo. Já em relação ao Irã, os israelenses buscariam apenas se defender. É uma causa mais legítima na visão de Israel.

Se 78% dos israelenses defendem a solução de dois Estados, o que implicaria no desmantelamento de grande parte dos assentamentos, 66% considera necessário um ataque preventivo contra as instalações nucleares do Irã, de acordo com pesquisa do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat, da Universidade Bar-Ilan. O estudo foi encomendado pela Anti-Defamation League. Apenas 15% se opuseram.

No início dos anos 1980, Israel bombardeou o reator nuclear de Osirak, no Iraque, adiando indefinidamente os planos de Saddam Hussein desenvolver armas nucleares. Uma ação nos mesmos moldes seria mais complicada. Por quatro motivos. Primeiro, o Irã espalhou e escondeu o seu projeto nuclear – além disso, argumenta que os seus fins são energéticos. Em segundo lugar, conforme afirmou o próprio presidente de Israel, Shimon Peres, no máximo, Israel adiaria os planos iranianos. Mas o Know-How já existe. No médio prazo, os iranianos poderiam mais uma vez desenvolver as armas. Uma terceira dificuldade é a possível resposta do Irã, incluindo o uso de seu aliado Hezbollah. Para terminar, a opinião pública internacional poderia se voltar contra os israelenses.

Por outro lado, Israel pode argumentar que, mesmo espalhado, um ataque atrasaria e alertaria o Irã de que o desenvolvimento de armas nucleares não será tolerado. A resposta, talvez, não ocorresse, como foi no caso do próprio Iraque nos anos 1980 e da Síria em 2007. Aliás, os sírios, depois dos ataques, ficaram ainda mais inclinados a negociar com Israel. A opinião pública internacional, na visão israelenses, poderia até criticar, mas grande parte se daria por satisfeita por Israel ter resolvido a questão nuclear iraniana.

O problema é levar adiante este ataque sem entrar em choque com o governo americano e jogar por água abaixo negociações com sírios e palestinos. No ano passado, Israel, ainda governado por Ehud Olmert, pediu aval aos EUA para atacar as instalações nucleares iranianas. O presidente George W. Bush, aliado incondicional de Israel e em fim de mandato, não concedeu. Seria muito difícil imaginar que seria diferente com Obama, defensor de uma via diplomática para a questão iraniana.

Apenas para completar, o Irã não tem o direito de possuir armas nucleares por ser signatário do tratado de não proliferação nuclear. Foi uma atitude independente dos iranianos. Ninguém os forçou. Israel, por sua vez, não assinou o tratado, o que lhe permite ter armas atômicas.

É realista imaginar que os dois países queiram ter bombas nucleares. Israel se sente ameaçado em uma região hostil à existência de seu Estado. O Irã sabe que possui os EUA na sua fronteira com o Iraque e com o Afeganistão. Também teme Israel. E aprendeu com o Paquistão e a Coréia do Norte que possuir arma nuclear ajuda a conter ações inimigas.

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