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Para oposição, é mais negociar do que derrotar Assad

gustavochacra

05 de fevereiro de 2013 | 13h29

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Começa a emergir uma sensação entre os opositores de Bashar al Assad no exterior de que será muito difícil derrotá-lo militarmente sem ajuda externa. Como esta segue distante, conforme o próprio presidente Barack Obama já deixou claro, a alternativa será aceitar negociar com o regime de Damasco.

O principal líder da oposição no exílio propôs dialogar com representantes de Assad em Istambul, Cairo ou Tunis. Em troca, o governo sírio libertaria milhares de prisioneiros políticos. O processo, de acordo com a oposição, culminaria na saída do atual líder sírio de forma negociada e sem a necessidade de desmantelar todos os pilares do atual governo, incluindo parte das Forças Armadas.

Esta alternativa de negociar tem uma série de pontos positivos. Primeiro, evitaria um colapso total do Estado. Em segundo lugar, armamentos químicos e convencionais seriam mantidos em segurança. A burocracia do Estado também ficaria intocada, evitando que funções do governo fiquem completamente paralisadas. Além disso, mortes poderiam ser evitadas com um possível cessar-fogo. Por último, minorias cristãs e alauítas, associadas ao regime, se sentiriam mais seguras.

Assad, por sua vez, tem a ganhar com a negociação. Primeiro porque provaria que, ao contrário do que afirmam analistas completamente desinformados sobre a Síria, ele desfruta de apoio um relevante popular. Em segundo lugar, embora mais enfraquecido, não foi derrubado e ainda sustenta muitos de seus pilares. E, em terceiro, tentaria se manter no poder até as eleições de 2014, quando pretende se candidatar. Hoje, é difícil ver um líder opositor capaz de derrotá-lo nas urnas.

Obviamente, apesar de positiva esta negociação, existem obstáculos. Afinal, a proposta foi feita pela oposição no exílio, que não conta com apoio popular na Síria e muito menos controla as facções armadas que lutam diariamente para derrubar regimes. Mais grave, alguns destes grupos rebeldes são ligados à Al Qaeda e não estão interessados no que opositores em Paris ou Istambul tem a dizer. O objetivo destes radicais islâmicos vai além de derrubar Assad. Querem estabelecer um Estado islâmico no país. 

Diante deste cenário, esta iniciativa de negociação, embora tendendo a um fracasso, é um enorme avanço. O regime e a oposição no exterior entenderam que não serão capazes de derrotar o adversário pela via militar. Mas a oposição armada dentro da Síria ainda acredita que pode vencer Assad. Por este motivo, podem esperar por mais dezenas de milhares de mortes e meses ou mesmo anos de mais guerra civil.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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