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Parte 2 – Entenda a diplomacia da Guerra da Síria

gustavochacra

28 de dezembro de 2012 | 14h05

Depois de falar ontem sobre a Geografia da Guerra da Síria, hoje tento explicar a Diplomacia da Guerra da Síria. Temos nove partes envolvidas

1 – Núcleo do Regime – Assad e as figuras mais próximas a ele

2 – Membros secundários do regime – membros do governo, como o vice Farouq al Sharaa, que não participam das decisões

3 – Oposição no Exílio – a Coalizão Nacional, composta por um grupo heterogêneo de opositores no exterior e reconhecida por muitos países árabes e do Ocidente

4 – Oposição Islamita Armada na Síria – grupos radicais islâmicos, responsáveis por atentados, que tem obtido sucesso militar contra o regime

5 – Oposição Secular Armada na Síria – facções militares compostas por muitos desertores e sírios comuns que usam o nome de Exército Livre da Síria

6 – Oposição Tradicional de Damasco – opositores sírios que existiam mesmo antes do levante e reconhecidos por Assad

7 – Oposição Pacífica na Síria – forte no início, perdeu força com início dos levantes

8 – EUA e Países Europeus – Apoiam a oposição, mas não militarmente

9 – Rússia – Apoia o regime, mas indica uma abertura para uma solução

10 – ONU – tenta encontrar uma saída

11 – Turquia, Arábia Saudita e Qatar – Apoiam militarmente os opositores

12 – Irã, Iraque e Hezbollah – Apoiam militarmente o regime

As negociações tem se dado através da mediação da ONU. Esta quer que a Rússia pressione Assad e os EUA, a oposição no exílio. Por que fracassará? Porque, mesmo com a pressão russa, Assad prefere o status quo do que entregar os poderes. Isso significaria o fim do regime. E ele ainda controla Damasco e a Costa Mediterrâneo, como vimos ontem. Não há incentivo para ceder. Além disso, a pressão de seus aliados domésticos, que lutam entre a vida e a morte e não terão opção de exílio, é maior do que a de Moscou. O Irã, o Iraque e o Hezbollah tampouco teriam benefícios com um governo de transição, que certamente será hostil a eles

A oposição no exílio não manda absolutamente nada nos rebeldes lutando na Síria. Um acordo deles com os EUA, ONU, europeus e russos seria irrelevante. A Turquia, o Qatar e a Arábia Saudita, junto com as facções de oposição dentro da Síria, sejam elas islamitas ou seculares, avaliam ser possível derrubar o regime de Assad sem a necessidade de um governo de transição. É melhor, para eles, lutar mais um meses até tomar Damasco. Na prática, assumiriam o poder na Síria (e guerreariam entre si)

Portanto a diplomacia para a Síria fracassará no longo prazo, ainda que ocorram avanços no curto e no médio prazo.  A Guerra da Síria ainda está longe do fim. Nenhum dos lados pode derrotar o outro, mas a oposição tem se fortalecido e segue em uma tendência de vitória. O regime ainda tem condições de reverter, mas cada vez menos. Eu prestaria atenção mesmo nos membros do regime sem poder de decisão. Eles podem tentar um golpe

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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