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Perguntas e repostas para entender a luta do Líbano contra a Al Qaeda em Arsal

gustavochacra

05 de agosto de 2014 | 15h41

O que é Arsal?

Arsal é uma pequena cidade libanesa majoritariamente sunita na fronteira com a Síria, no norte do Vale do Beqaa. Há cerca de cinco dias, se transformou no palco da maior batalha dentro do território libanês desde a eclosão da Guerra da Síria em 2011 e eleva mais uma vez o temor de que o conflito no país vizinho atinja o Líbano – noto que os embates se concentram em Arsal, bem distante de Beirute.

O que ocorreu nesta cidade libanesa?

Neste fim de semana, o Exército libanês prendeu um líder da Frente Nusrah em Arsal. Note que, apesar de estarem sendo derrotados nesta área da Síria, os grupos rebeldes continuam atuantes. Para se vingar da prisão, a Frente Nusrah, que possui membros de todas as partes do mundo, da Tchetchênia aos Estados Unidos, e foi armada por nações do Golfo e também do Ocidente para enfrentar o regime laico de Assad, se levantou contra as forças de segurança libanesas. Nos combates, de acordo com autoridades do Líbano, 16 soldados, 50 militantes e 11 civis morreram.

Mas Assad não vinha vencendo a Guerra da Síria?

Verdade, nos últimos meses, houve uma consolidação de território dentro da Síria. O regime de Bashar al Assad controla os principais centros populacionais, como Damasco, Hama, Homs e as cidades costeiras de Tartus e Latakia, no Mediterrâneo. Aleppo está dividida entre o regime e os rebeldes. O interior do país, mesmo perto das grandes cidades, ainda sofre com o conflito. A parte próxima à fronteira com o Iraque está nas mãos de grupos radicais rebeldes como a Frente Nusrah (braço da Al Qaeda na Síria), e ao ISIS (grupo ainda mais radical do que a Al Qaeda), que perseguem cristãos, xiitas, alauítas, drusos e sunitas moderados no Iraque e na Síria e lutam contra o regime de Assad em Damasco e o governo do Iraque em Bagdá. Basicamente, a Síria hoje é a Colômbia dos anos 1990, substituindo as FARC e o ELN pela Frente Nusrah e o ISIS.

 E houve um cessar-fogo em Arsal?

A cidade permanece parcialmente sob controle da Frente Nusrah. Hoje, foi acordado um cessar-fogo humanitário depois da intervenção de clérigos sunitas libanesas. Haveria um número indeterminado de soldados libaneses nas mãos do grupo rebelde considerado terrorista pelos EUA e pelo regime de Assad. No Líbano, a Frente Nusrah já reivindicou atentados terroristas em Beirute. A situação humanitária em Arsal estaria se deteriorando com controle da Frente Nusrah. Faltam remédios e alimentos para a população. Feridos tem sido transportados para fora da cidade.

E o resto do Líbano, como está?

O cenário para o Líbano é complexo. Primeiro, o país possui 1 milhão de refugiados sírios e a Frente Nusrah obviamente possui penetração em pelo menos parte deste contingente. O ISIS, idem. Há ainda 500 mil refugiados palestinos, embora estes estejam menos sujeitos a influência de grupos extremistas com atuação na Síria. Por último, o Líbano é composto por diversas religiões, sendo os xiitas, cristãos (especialmente maronitas) e sunitas as principais pluralidades. Como sabemos, os rebeldes da Frente Nusrah e do ISIS são sunitas. Seus discursos, embora repudiados pela maior parte dos libaneses, têm ressonância em setores mais radicais sunitas nas cidades de Trípoli e Sidon, que são duas das mais importantes do país depois de Beirute.

Qual a posição do grupo xiita Hezbollah e de seus aliados cristãos na coalizão 8 de Março?

O Hezbollah, maior inimigo da Frente Nusrah e do ISIS do Líbano, nega envolvimento no conflito em Arsal. O grupo, que é xiita, teme que um envolvimento nos combates dentro do Líbano possa acirrar ainda mais as divisões sectárias. A organização, como sabemos, atua na Síria, especialmente perto da fronteira, para apoiar o regime de Assad contra a Frente Nusrah e o ISIS. Já os aliados cristãos do Hezbollah (sim, muitos cristãos são aliados do grupo xiita no Líbano) da Frente Patriótica Nacional, liderada pelo tradicional líder cristão Michel Aoun, são contrários a negociações com o ISIS e a Frente Nusrah. Dizem que o Líbano deve negociar com o regime de Assad.

E qual a posição da 14 de Março?

A coalizão 14 de Março, composta majoritariamente de sunitas e algumas facções cristãs, também se manifestou contra a tomada de Arsal e defendeu a ação do Exército do Líbano, embora, na Síria, apoiem a oposição. Eles diferem, porém, grupos armados supostamente moderados da Frente Nusrah e do ISIS.

Como as outras lideranças libanesas veem o conflito?

De qualquer maneira, as principais lideranças cristãs, xiitas, sunitas e drusas do Líbano não possuem interesse em o conflito se expandir para outras partes do território. O Exército libanês é respeitado por todas as facções políticas e sectárias libanesas, sendo comandado pelo general Jean Kahwaji, um cristão, conforme manda a lei – e cotado para ser o futuro presidente (que também de ser cristão por lei).

O Líbano se envolveu na Guerra da Síria?

 O Exército do Líbano não se envolveu na Guerra da Síria e mantém um política de neutralidade. Por outro lado, o Hezbollah luta ao lado de Assad contra a Frente Nusrah e o ISIS e sunitas da 14 de Março apoiam grupos armados rebeldes sírios

O conflito entre Israel e o Hamas tem algo a ver com os combates em Arsal?

Não, não possuem nada a ver.

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