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Perguntas e Repostas sobre a ação dos EUA contra o ISIS no Iraque

gustavochacra

08 de agosto de 2014 | 11h04

Obama iniciou uma nova Guerra no Iraque?

Não. A Guerra no Iraque nunca terminou. Os EUA haviam encerrado a ocupação em 2011 e não conseguiram chegar a um acordo para manter tropas remanescentes. Ontem, porém, Obama autorizou uma intervenção militar aérea contra o ISIS, um grupo ultra extremista sunita que controla enormes porções dos territórios sírio e iraquiano. Mas esta ação não inclui o envio de tropas. Vale lembrar que, na Síria, o ISIS luta contra Bashar al Assad. No Iraque, contra o governo central em Bagdá, contra o Curdistão e persegue absolutamente todos que discordam de sua ideologia. Isso inclui a maioria xiita do Iraque e as minorias cristãs e yazidis e mesmo os sunitas moderados.

Por que Obama autorizou a intervenção apenas agora e não antes?

Por três principais motivos. Primeiro porque o ISIS passou a ameaçar também o Curdistão, que estava imune às ações deste grupo extremista. Na região, há uma série de interesses americanos. Em segundo lugar, há um risco de genocídio de cristãos e de yazidis nesta área se nada for feito imediatamente. Terceiro, Obama não agiu antes porque havia colocado como condição a saída de Nuri al Maliki do poder em Bagdá

 Explique melhor o cenário político em Bagdá

O governo iraquiano é controlado por xiitas seculares liderados por Maliki. Ele marginalizou os sunitas do poder. Essa marginalização faz muitos sunitas, incluindo forças leais ao antigo regime de Saddam Hussein e líderes tribais, a preferirem o radicalismo do ISIS ao governo em Bagdá. Isso explica em parte eles não terem agido para impedir a tomada de Mossul, segunda cidade do Iraque. Os EUA, e mesmo o Irã, pressionam Maliki a ceder poder e, desta forma, os iraquianos possam formar um governo mais inclusivo, com maior participação dos sunitas. Mas, entre os sunitas do Iraque, os EUA são vistos como aliados dos xiitas e, indiretamente do Irã

E como um novo governo ajudaria a derrotar o ISIS?

Esta ação poderia levar lideranças tribais sunitas e se voltarem contra o ISIS, pois se sentiriam mais representados em Bagdá. Durante o surge americano no governo Bush, o apoio dos líderes tribais foi fundamental para derrotar o ISIS, então conhecido como Al Qaeda no Iraque. Na época, estes líderes tribais recebiam mesada. Agora, poderiam receber mais voz política

 Por que Maliki não deixa o poder?

Porque ele é político e se move por interesses. Se deixar o cargo de premiê, perderá imunidade e provavelmente será processado por corrupção e até tortura. Além disso, Maliki é poderoso e muitas pessoas e países, incluindo o próprio EUA, veriam danos a seus interesses. Note que Maliki por anos conseguiu contar com o apoio de Washington e de Teerã. Não é um político medíocre, mas extremamente hábil

Mais uma vez, o que é o ISIS?

O ISIS é u m grupo ultra extremista que surgiu no Iraque durante a ocupação americana. Foi derrotado, mas não eliminado, no surge. Há três anos, começou a renascer na Síria, ficando na vanguarda da luta contra Bashar al Assad. Países do Golfo e do Ocidente, além da Turquia, passaram a armar os rebeldes contra Assad e muitos destes armamentos terminaram nas mãos do ISIS. O grupo passou a controlar partes do território sírio e se tornou o maior adversário de Assad. Aos poucos, voltou também a direcionar suas forças para o Iraque. O objetivo do grupo é formar uma versão deturpada de um califado islâmico – não seria similar aos califados Abassidas e Omíadas no passado, por exemplo

 Quem são os inimigos do ISIS?

EUA, Irã, Assad, Maliki, Curdos, xiitas, cristãos, yazidis, sunitas moderados e até a Al Qaeda (os dois romperam na Guerra da Síria). Mas, destes acima, os maiores adversários são Assad, na Síria, e o governo de Maliki, no Iraque.

 Por que Obama não bombardeia o ISIS na Síria?

Porque Obama não quer envolver os EUA em um conflito no qual é inimigo dos dois lados. Uma ação militar contra o ISIS na Síria poderia favorecer Assad. Muitos analistas e mesmo membros do governo dos EUA avaliam que Assad é a melhor alternativa para garantir a segurança de minorias religiosas na Síria e evitar o avanço do ISIS. Mas politicamente, devido à aliança de Assad com o Hezbollah e o Irã e o histórico de crimes de guerra no conflito sírio, seria politicamente impossível para Obama ajuda-lo abertamente

Por que os EUA não armam os peshmerga curdos?

Os peshmerga, que são basicamente o Exército do Curdistão, são conhecidos por serem grandes guerreiros. Mas eles enfrentam falta de armamentos para lutar contra o ISIS. Os EUA, porém, se recusam a arma-los por enquanto temendo irritar o governo central em Bagdá, que é contra. Afinal, isso pode ferir a soberania do Iraque. O Curdistão tem autonomia, mas não é independente

Além da ação militar, há uma ação humanitária dos EUA no Iraque?

Sim, os EUA estão tentando ajudar minorias cristãs e yazidis, além dos xiitas, que estão cercados pelo ISIS em áreas como as Montanhas Synjar

 Há risco de genocídio de cristãos e yazidis no Iraque?

Sim, como escrevi acima, existe um risco elevado de genocídio contra os cristãos e yazidis no Iraque. Diferentemente da invasão americana, quando os cristãos também foram perseguidos e os EUA não os protegeu mas Assad deu abrigo a centenas de milhares de cristãos na Síria, agora ficou mais difícil depender do líder sírio. Embora Assad ainda proteja cristãos em áreas sob seu controle, não há como os cristãos do Iraque passar pelas áreas controladas pelo ISIS no Iraque e  na Síria até chegar a Damasco ou outras cidades do Líbano ou da Síria. As outras alternativas são Bagdá ou o Curdistão

Quem apoia o ISIS?

Primeiro, os sunitas iraquianos, mesmo os moderados, que veem o governo como sendo controlado pelos xiitas. Na Síria, o ISIS perdeu o apoio popular pelo seu radicalismo, com muitos sunitas preferindo o regime de Assad. Externamente, o ISIS tem apoio de figuras independentes no Golfo e talvez mesmo de países. Suas armas são contrabandeadas de rebeldes líbios que lutaram contra Kadafi e também do roubo de armamentos do regime de Assad na Síria e do governo do Iraque. Eles também controlam poços de petróleo e agora até mesmo uma das maiores represas do Iraque, responsável pelo fornecimento de água para centenas de milhares de pessoas

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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