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Perguntas e Respostas para entender como os palestinos veem Israel

gustavochacra

29 de julho de 2014 | 10h38

1. Os árabes não aceitaram a criação de um Estado judaico em 1947 na ONU?

Verdade. Mas, em 2011, a Palestina buscou reconhecimento como país não membro na Assembleia Geral da ONU dentro das fronteiras  pré-1967 (Cisjordânia. Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental). Todos os países árabes, e a maior parte das nações do Mundo votaram a favor, indiretamente reconhecendo Israel no restante do território. Israel votou contra com o argumento de que as fronteiras devem ser negociadas em um acordo bilateral

 2. A Palestina não reconhece Israel?

Mentira. A OLP (Organização Para a Libertação da Palestina) reconhece desde os anos 1990 com os acordos de Oslo. E Israel reconhece o direito a um Estado palestino desde a mesma data. O Hamas não integra a OLP

3. Mas o Hamas prega a destruição de Israel?

Verdade. Está na carta de fundação do grupo. Mas líderes da organização já indicaram que aceitam a Palestina apenas dentro das fronteiras de 1967. Além disso, o Hamas, meses atrás, aceitou apoiar um governo tecnocrático que reconhece a existência de Israel. Mas dois pontos devem ser levados em conta – o Hamas tem um histórico de traição, como vimos ao apoiar rebeldes na Síria contra Bashar al Assad, que os defendeu por anos. E o Hamas, hoje, não tem condição de destruir nem um quarteirão de Israel. Para completar, há membros do governo israelense que não aceitam o direito de a Palestina existir

4. Os países árabes não reconhecem Israel?

Em termos. Todos os países da Liga Árabe ofereceram, em 2002, estabelecer relações diplomáticas com Israel caso o país voltasse para as fronteiras de 1967, reconhecidas pela ONU. Israel não aceitou e prefere negociar com a Autoridade Palestina (Avigdor Lieberman, chanceler de Israel, porém, acha boa a opção de negociar com a Liga Árabe). A proposta ainda está na mesa e tem o apoio dos EUA. Vale lembrar que Egito e Jordânia têm relações diplomáticas com Israel e o Qatar e Omã, entre outros, possuem relações comerciais. No caso egípcio, hoje o regime do Cairo talvez seja o maior aliado de Israel no mundo. Mais até do que os EUA. A Arábia Saudita seria outro importante aliado na questão iraniana

5. E o Irã, a Turquia (que não são árabes) e o Hezbollah, reconhecem Israel?

A Turquia, sim. Inclusive, é um histórico aliado militar israelense. Mas, no atual governo de Erdogan, adotou uma postura radical a favor dos palestinos, inclusive do Hamas, deteriorando as relações dos dois países, embora sem rompimento de relações diplomáticas. O Irã era próximo de Israel até a queda do xá, em 1979. Mas depois virou o maior inimigo. Até pouco tempo atrás, o regime de Teerã era o maior patrocinador do Hamas. Quando o Hamas traiu Assad na Síria, o Irã se distanciou, embora mantenha uma proximidade com o braço militar. O Hezbollah também rompeu com o braço político do Hamas, mas voltou a se aproximar do braço militar, conhecido como Brigadas Qassam. Mas o Irã e o Hezbollah tomam cuidado para não irritar Assad no apoio ao Hamas

6. A Palestina não reconhece Israel como Estado judaico?

Verdade, nos últimos anos. Mas Arafat reconheceu. Abbas, de fato, não reconhece. Vale frisar que Netanyahu, neste seu segundo mandato (não no primeiro), é a primeira liderança israelense a fazer esta exigência em negociações com os palestinos. Até 2009, Israel não fazia esta reivindicação. Bastava reconhecer Israel como Israel. Os palestinos argumentam que esta é uma questão doméstica israelense e levam em conta os árabes cristãos e muçulmanos cidadãos de Israel que não concordam na maioria das vezes com o caráter judaico do Estado

7. Arafat rejeitou uma ótima proposta de Israel em 2000?

Verdade e mais de uma de vez. Deve ser criticado por isso e hoje poderia haver paz na região. Mas Netanyahu rejeitou, por questões domésticas e um mal entendido no processo de negociação, uma proposta ainda melhor para Israel neste ano, em 2014, na qual o presidente palestino aceitava uma Palestina desmilitarizada e com tropas americanas na Cisjordânia por anos e com a transição da segurança para tropas da OTAN comandadas pelos EUA. Segundo os EUA, Israel foi responsável pelo fracasso nas negociações ao não libertar a quarta leva de prisioneiros palestinos e anunciar a construção de mais casas em assentamentos (Israel retruca dizendo que estas casas seriam em assentamentos que ficarão no lado israelense em um acordo final)

8. Palestinos são fanáticos radicais islâmicos?

Mentira. Há palestinos fanáticos e radicais islâmicos, como os membros do Hamas. Mas a maior parte dos palestinos é muçulmana sunita, sem ser religiosa. Yasser Arafat, por exemplo, era casado com uma cristã e batizou a filha. Aliás, há palestinos cristãos e estes sempre estiveram na vanguarda do movimento palestino. A prefeita de Ramallah, capital da Autoridade Palestina, é cristã. A de Belém, também é mulher e cristã. George Habash, um dos maiores líderes históricos palestino, era cristão. Edward Said, maior intelectual palestino, era cristão. Hanan Ashrawi, também histórica líder palestina e uma das maiores críticas de Israel, é cristã. Todos os líderes religiosos cristãos da Terra Santa se identificam como palestinos. Normalmente, eles reclamam da ocupação israelense, que recentemente incorporou terras de famílias cristãs tradicionais de Beit Jala e Belém, na Cisjordânia. Em Gaza, por outro lado, houve crescimento na perseguição a cristãos. Como curiosidade, praticamente não existem xiitas palestinos

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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