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Perguntas e respostas sobre a Síria depois do ataque químico

gustavochacra

22 de agosto de 2013 | 10h31

Não dá para cravar quem teria sido o responsável pelo ataque químico de ontem na Síria. O New York Times mantém a cautela e chega a dizer que sequer pode-se garantir ter ocorrido um uma ação com armamentos químicos. Temos cenas horrendas de seres humanos mortos sem sinais de sangue. Agora, vamos tentar responder a algumas perguntas para saber o que pode ocorrer. As perguntas são

Houve ataque químico na Síria?

Tudo indica que sim. Mas, para provar, será necessária uma inspeção independente. Temos, neste momento, inspetores da ONU na Síria. A pressão internacional deve se concentrar totalmente em forçar o regime sírio a aceitar uma investigação

Se foi ataque químico, quem seria o responsável?

Escrevi sobre isso ontem. O principal suspeito ainda é o regime pela dimensão do ataque. Talvez tenha sido uma ação das forças sírias a revelia do alto escalão. Não pode-se descartar ter sido um grupo rebelde – lembrem da operação com sarin de um grupo terrorista japonês no metrô de Tóquio. E, por último, mais improvável, uma força estrangeira

Se foi o regime, qual era o objetivo?

Pela lógica, o regime não teria motivo para usar químicas. Afinal, o governo Obama considera o uso deste arsenal um divisor de águas. Com armamentos convencionais, o regime poderia matar a vontade. Por outro lado, ao usar armas químicas, Assad faria uma demonstração de força para os opositores, mostrando que não haverá limites para a repressão. No Oriente Médio, a lei do mais forte prevalece. É o que Thomas Friedman chama de “Hama Rules”

Se foi a oposição, qual seria o objetivo?

Existem mais de mil grupos rebeldes na Síria com agendas distintas. Alguns deles são terroristas. A ação seria, neste caso, para tentar culpar o governo e pressionar atores externos a intervirem na Síria

Se foi o regime, qual será a reação internacional? Haverá intervenção?

Neste momento, todos os países pressionam por uma investigação do ataque pelos inspetores da ONU. Caso se comprove algo apontando para o regime (será difícil conseguir), a Rússia ainda assim bloqueará uma resolução autorizando intervenção no Conselho de Segurança. A França, por sua vez, já disse que precisa haver uma resposta. Certamente não haverá envio de tropas, especialmente sabendo que o regime poderia se defender com armas químicas. O mais provável seria um bombardeio isolado, nos moldes de Reagan contra Kadafi nos anos 1980 – as cenas são muito fortes para não haver resposta alguma. Uma zona de exclusão aérea, como a implementada contra Saddam Hussein depois de ataque contra os curdos  nos anos 1990, também pode ter uma alternativa. O Ocidente, apesar da retórica, não quer a queda de Assad pois considera a oposição mais perigosa – o general Martin Dempsey, principal comandante militar americano, deixou claro que os rebeldes não representam os interesses dos EUA

Se foram membros do regime a revelia de Assad, qual será a reação?

Será muito difícil provar que isso teria ocorrido e tudo cairia nos colos de Assad de qualquer maneira, com um cenário similar ao anterior

Se foi um grupo rebelde, o que ocorrerá?

Certamente Assad, que já vence no campo de batalha, terá uma vitória também nas relações públicas e o regime sírio se fortalecerá ainda mais

Tirando o ataque químico, como está a guerra?

As forças de Assad obtiveram uma série de vitórias nos últimos meses com o apoio do Hezbollah. Controlam as principais cidades, a não ser Aleppo, que está dividida. O regime conta com apoio de cristãos (10% da população), alauítas (também 10%), druzos (idem) e sunitas seculares, enquanto os rebeldes são majroitariamente sunitas religiosos – uma divisão parecida com a do Egito. A oposição está rachada, com conflitos internos. Áreas curdas ficaram praticamente independentes

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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