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Por causa dos passaportes otomanos, libaneses são chamados de turcos no Brasil

gustavochacra

11 de março de 2009 | 07h03

Meu avô era otomano. Assim como muitos imigrantes sírios e libaneses que chegaram ao Brasil antes do fim da Primeira Guerra, quando o Império Otomano foi desmembrado. Como a maioria dos descendentes de árabes sabe, nossos antepassados eram chamados de turcos porque chegavam à América com o passaporte ou identidade turco-otomana. Na época, Síria e Líbano não eram países independentes, apesar de existir a Província de Damasco, de Beirute e a subprovíncia do Monte Líbano. Turcos, da Turquia atual, não imigraram para o Brasil em grandes quantidades. É raro encontrar um descendente no país. A não ser por alguns judeus sefaraditas.

Mas meu avô, assim como muitos imigrantes sírios e libaneses, também era bizantino. Sua religião era cristã grego-ortodoxa – a mesma que tem a bela Catedral no Paraíso, em São Paulo. Ou “Rom”, como dizem em Istambul e também no Líbano e na Síria. Rom vem de Roma. De Império Romano, que tinha como capital oriental em Constantinopla, sede da Igreja Ortodoxa. Depois da queda de Roma, se tornou o centro do Império até ser tomada pelos turcos em 1453. Os “Rom”, assim como os armênios e os judeus, não foram expulsos. Permaneceram no Império Otomano, dando o caráter cosmopolita a cidades mediterrâneas como Tessalônica, Izmir, Alexandria, Beirute, Jaffa e, claro, Istambul.

A Igreja Ortodoxa sempre esteve misturada aos muçulmanos. Muito mais do que a Católica. Prova disso é a existência de países muçulmanos na Europa como a Bósnia e a Albânia, em meio a Estados Ortodoxos como a Sérvia, Macedônia e Grécia.

Hoje, a Igreja Ortodoxa ainda tem sede em Istambul. Mas, ao contrário dos católicos, que colocam o Papa acima de tudo, os ortodoxos têm igrejas nacionais. De acordo com o turco Asli Bilge, especialista em cristianismo da Universidade de Marmara, “o Patriarcado de Moscou e o Patriarcado de Grego-Ortodoxo de Istambul são atores transnacionais que reivindicam a liderança do mundo ortodoxo. A era pós-soviética trouxe novos desafios para as duas igrejas e objetivos específicos – manter a integridade do seu território canônico e ganhar influência dentro da Igreja Ortodoxa”. Com a morte de Alexis 2o, fica a expectativa para saber como ficará o lado russo, desprovido de seu carismático patriarca que comandou a sua igreja no pós Guerra Fria.

Este mundo cristão do oriente é muitas vezes ignorado no Ocidente. Há um ano, saiu uma reportagem na pretigiada revista “Foreign Policy” afirmando que, caso o islamismo não houvesse surgido, choques ainda ocorreriam no Oriente Médio e nos Bálcãs. Os inimigos do Ocidente seriam os Ortodoxos, e não os muçulmanos. Aliás, nas duas vezes que os EUA tiveram que lidar com um confronto envolvendo ortodoxos e muçulmanos, ficou do lado dos islâmicos – primeiro na Bósnia e depois em Kosovo, sempre contra a Sérvia.

Voltando ao meu avô e ao fato de sua origem otomana e bizantina, lembro de, ao visitar uma vez a sua vila (Rachaya, no Líbano), ter ficado surpreso que um primo do meu pai havia estudado medicina na Bulgária. Fiquei sabendo também que muitos cristãos ortodoxos libaneses costumam viajar a países como a Ucrânia e a Geórgia nas férias. Em Nova York, meus técnicos de pólo aquático, sérvios, disseram que sempre tiveram interesse em conhecer o Líbano por causa dos cristãos ortodoxos. Para completar, ao ir a um restaurante de comida turca ou grega, não dá para deixar de notar a influência da culinária árabe – e vice-versa. No fundo, não interessa se é otomano, libanês, bizantino, ortodoxo, muçulmano ou grego – o segredo desta região, que a torna tão especial, dizem, é o azeite.

Choripan argentino em Tel Aviv

Falando em comida, um argentino e um brasileiro abrirão um restaurante que venderá Choripan em Tel Aviv. O sanduíche será feito de carne bovina, já que porco é proibido na religião judaica. Certamente, os proprietários poderão contar com a grande comunidade argentina em Israel. Muitos jovens judeus argentinos imigraram para o país depois da crise econômica do começo da década. O problema é que, apesar de ter freqüentado a Bombonera e já ter comido muito Choripan, não sou especialista no assunto. Para entender melhor, meu amigo Ariel Palácios, no seu blog Hermanos, aqui no Portal do Estadão, explica o que é um ‘choripán’. E o que é o inevitável partner do choripán, o ‘chimichurri’

Síria e Arábia Saudita

O presidente da Síria, Bashar al Assad, do Egito, Hosni Mubarak, e o rei Abdullah, da Arábia Saudita, se reúnem hoje em Riad. O encontro é importante pois pode indicar uma aproximação da Síria com o lado pró-EUA na Guerra Fria no mundo islâmico contra o Irã

Netanyahu fala em paz

O provável futuro premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, disse estar disposto a uma paz genuína com a Síria. Mas não falou em retornar as colinas do Golan. Na campanha, ele disse que o território não seria devolvido. Portanto, ou Netanyahu mentiu aos eleitores, ou mente agora, para os sírios. Afinal, é impossível ter uma paz verdadeira com Damasco sem devolver o Golan

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