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Por favor, leiam a triste e heróica história do chefe de polícia de Dallas

gustavochacra

09 de julho de 2016 | 14h46

Vocês devem ter visto a imagem do chefe de polícia de Dallas, David Brown, explicando todo o episódio do ataque terrorista que resultou na morte de cinco policiais. Negro, ele teve de dizer que o atirador Michah Xavier Johnson alvejava especificamente brancos no atentado. Policial, ele teve também de dizer que o atirador alvejava especificamente policiais.

Brown tem orgulho de ser policial e tem orgulho de ser negro. Entende haver sim um problema de racismo contra negros e hispânicos entre alguns membros da polícia nos EUA. E sabe também que a maioria absoluta dos policiais quer garantir a segurança da população.

Por este motivo, Brown treinou a sua polícia em Dallas para ser uma das mais hábeis na forma de lidar com a população. Conseguiu reduzir abruptamente os atos violentos de policiais. Reduziu também os atos de racismo. Tornou a corporação mais diversa. Hoje, 55% da polícia de Dallas é branca, 25% negra, 17% hispânica e 3% asiática e outras minorias. Ao mesmo tempo, melhorou a segurança da cidade, uma das mais multiculturais dos EUA, apesar do estereótipo associado a cowboys.

Mas isso não leva em conta a história de vida de Brown. Nos anos 1990, ele viu seu parceiro na polícia ser morto por bandidos. O líder da polícia ajuda a família da viúva e seus filhos até hoje, sem deixar faltar nada. Na década seguinte, o irmão de Brown foi morto por traficantes.

Alguns anos atrás, a história mais triste. O filho de Brown, que era bipolar, matou um policial e um pai de família durante um surto psicótico. Foi morto em seguida por policiais. Logo depois de sair do funeral do filho, Brown foi à casa das famílias das vítimas para pedir desculpas por este ataque.

Difícil imaginar alguém que viva tanto o atual contexto de tensão racial nos EUA quanto Brown. Ele entende o que é ser alvo de gigantesco racismo contra negros no país. Ele entende o que é ter de lidar com a morte de um policial, pai de família, que tentava garantir a segurança. Ele entende o que é ver um irmão ser morto por bandidos. E entende o que é ter um assassino na família.

Com toda esta experiência, Brown sabia da importância de garantir a segurança na manifestação em Dallas. Seus policiais eram exemplares. E os manifestantes também eram pacíficos e protestavam contra a violência policial em outras partes dos EUA. Mas cinco deles foram mortos por um lobo solitário. Uma pessoa estragou um protesto legítimo e necessário contra o racismo. E tirou a vida de policiais honestos, deixando mulheres viúvas e crianças órfãos.

O terrorista de Dallas não representa em hipótese alguma a população negra dos EUA, que é alvo de racismo e de violência pessoal. Ele representa apenas ele próprio. E os policiais que mataram negros inocentes em ações claramente racistas na Louisiana e Minnesota representam apenas eles próprios, não toda a polícia. Brown foi vítima e herói em todos estes casos.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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