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Por que a França não aceitou o acordo dos EUA com o Irã?

gustavochacra

14 de novembro de 2013 | 13h38

Meu comentário sobre a Síria no Jornal das Dez da Globo News

O governo de Barack Obama está irritado com a França, e não com o Irã, nas negociações envolvendo o programa nuclear iraniano. Os franceses teriam sido, de acordo com uma série de relatos de diplomatas envolvidos, os principais responsáveis pelo impasse em Genebra. Americanos e o regime de Teerã teriam chegado a um acordo, também aceito por britânicos, alemães, chineses e russos. Mas, sem Paris, não houve o consenso necessário no lado do Sexteto.

Naturalmente, os EUA entendem a cautela e até mesmo oposição de Israel e Arábia Saudita a um acordo. São países que, por suas localizações geográficas, se sentem mais ameaçados pelo Irã. Os israelenses e os sauditas temem genuinamente mais do que os americanos uma bomba atômica nas mãos do regime de Teerã.

Mas a França é diferente. Primeiro, não sofre a mesma ameaça que Arábia Saudita e Israel. Em segundo lugar, os franceses não teriam participado tão ativamente das negociações, como os britânicos e os americanos. Por que teriam agido desta forma? Muitos analistas dizem que teria sido para agradar os sauditas.

Fareed Zakaria, comentarista da CNN e da Time, escreveu na sua coluna

This has led some to wonder whether France’s strategy was to demonstrate its hard-line credentials to the most anti-Iranian states in the Middle East–Saudi Arabia, in particular–and thus gain favor. (Paris has signed a multibillion-dollar defense deal with Riyadh in recent months.) And of course, being anti-American comes naturally to a French President, especially one from the Socialist Party, like François Hollande.

Em seguida, porém, Zakaria ressaltou que que a cautela da França também tem seus méritos, lembrando a questão do reator de Arak, voltado para o plutônio, muitas vezes é esquecida diante da preocupação com o enriquecimento de urânio.

De qualquer maneira, não entendo o motivo de os chanceleres não terem seguido reunidos por mais dias até chegarem a um acordo. Algo como Camp David entre Israel e Egito. Esta interrupção até o dia 20 abriu espaço para os opositores a um acordo, dos dois lados, poderem fortalecer seus argumentos. Obviamente, era totalmente possível americanos e franceses chegarem a um denominador comum se prosseguissem por mais dias.

A alternativa a uma saída diplomática é 1) uma ação militar. Mas esta, se não ocorreu no passado, quando era mais fácil, dificilmente aconteceria hoje 2) o Irã desenvolver uma bomba atómica.

Existiria, na visão de Israel, Arábia Saudita e congressistas americanos uma terceira via – a de fortalecer ainda mais as sanções para o Irã fazer mais concessões. Não concordo, mas é um argumento forte. As sanções tem funcionado bem para os iranianos se tornarem mais brandos. Ao mesmo tempo, não haverá liderança mais moderada do que Rouhani no curto e médio prazo em Teerã. Devem aproveitar enquanto a popularidade dele estiver em alta e a da Guarda Revolucionária, em baixa.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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