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Por que a proibição do burkini é errada?

gustavochacra

25 Agosto 2016 | 14h31

Acho equivocada a decisão de prefeitos de algumas cidades francesas de proibirem mulheres de usarem o burkini. E vou tentar responder a cada um dos argumentos a favor

“O burkini deveria ser proibido por questões de segurança”

Este é o mais fácil de desmontar. Nunca uma mulher de burkini cometeu um atentado terrorista em toda a história da humanidade. Logo, não há lógica. A roupa mais usada por terroristas é a calça jeans. E, importante, burkini não tem nada a ver com burqa, a não ser o nome, pois não cobre o rosto (que seria uma justificativa de segurança).

Os muçulmanos têm de se adaptar à França

Sem dúvida, devem respeitar as leis e a cultura francesas. Mas este argumento não leva em consideração que a maioria dos muçulmanos da França é francesa da segunda ou terceira geração. A maior parte deles é bem integrada à sociedade. Usar burkini, roupa de sambista da Portela ou chapéu de boiadeiro não significa ir contra a França, como seria queimar a bandeira do país.

Tudo bem, a França é laica e burkini pode ser um símbolo religioso, diferentemente da roupa do portelense. Mas, por este raciocínio, freiras também deveriam ser proibidas de cobrir a cabeça na praia ou judeus de usar o quipá quando quiserem ver o pôr do sol em Nice. Alguns dirão que a França segue a cultura judaica-cristã. Não se sustenta também. Porque não seria laica neste caso. É uma coisa ou outra. Na verdade, proibição alveja especificamente uma religião, a islâmica. Logo, a França age como a Arábia Saudita ao impedir manifestações de religiões das quais discorda (no caso todas, menos a islâmica sunita).

As mulheres são obrigadas a usar o burkini

Se alguma mulher for obrigada a se vestir de alguma maneira, isso é grave. As autoridades devem abrir canais para que elas possam denunciar quem as obriga, sejam elas muçulmanas, hindus, judias ortodoxas, freiras ou mesmo profissionais do entretenimento sexual adulto pressionadas por cafetões. No caso dos burkinis, está claro que a imensa maioria delas usa porque quer. Ou você acha que a jogadora de vôlei de praia do Egito não aproveitaria a mídia na Olimpíada para dizer que é obrigada a usar (noto que muitas mulheres egípcias não usam)? Ou a esgrimista americana de Nova Jersey que usa o hijab não faria o mesmo? Na verdade, a partir de agora, passaram a ser proibidas de usar pelas autoridades francesas. Isto é, a liberdade das mulheres foi restringida com a proibição do burkini

Nos países de maioria islâmica as mulheres são obrigadas a se cobrir

Depende do país. Não são obrigadas na Bósnia, Turquia, Tunísia, Líbano e muitos outros. Aliás, se quiserem ver como libanesas vão à praia, coloquem no Google “Edde Sands Party” and enjoy! Mas são de fato na Arábia Saudita, Irã e muitos outros. Isso é grave e devemos condenar. As mulheres têm de ter liberdade de se vestir como quiserem, de burkini ou de fio dental. Deve ser como no Brasil ou Canadá. A França, ao proibir, age de forma totalmente antagônica aos EUA, por exemplo, onde a liberdade religiosa é garantida pela primeira emenda da Constituição

Guga, você só sabe defender os muçulmanos

Não, eu defendo os seres humanos e a liberdade de todas as pessoas sejam elas muçulmanas ou não. Insisto, defendo a liberdade. Quero que o mundo seja mais como o Canadá e menos como a Arábia Saudita, mais como Londres e menos como Riad. Inclusive, escrevi dezenas ou centenas de textos sobre perseguição a cristãos no mundo árabe, tendo feito reportagens in loco na Síria e no Líbano e entrevistando algumas autoridades religiosas cristãs em ambos países. Também sempre condeno o antissemitismo crescente não apenas no Oriente Médio como no Ocidente.

Meu problema nunca foi com uma religião ou outra. Pessoalmente, não sou religioso (não fui batizado, sou o caçula de três e meus pais esqueceram), embora tenha com muito orgulho origem cristã grego-ortodoxa, grego-católica (melquita) e católica-romana. Não descarto me batizar na Igreja Ortodoxa. Meu problema é com terroristas e grupos terroristas, como o Daesh, também conhecido como ISIS ou Grupo Estado Islâmico, Al Qaeda, Boko Haram e outros. Eles sim, em nome de um islamismo distorcido, matam pessoas ao redor do mundo, especialmente muçulmanos. Mas o que a menina de burkini tem a ver com eles? Nada, absolutamente nada. Só quer tomar um banho de mar. Sou defensor da política americana, de liberdade religiosa, e não da França, de impor um laicismo que, nos últimos tempos, se foca em restrições à religião islâmica, como no caso do burkini.

E fico preocupado com o preconceito. Este é enorme na Arábia Saudita e no Irã. Não quero que o mesmo ocorra em todos os lugares, como a França. Por exemplo, um filho de libaneses, de 37 anos, foi morto em Oklahoma na semana passada. O assassino o chamou de “Dirty Arab”. O velório ocorreu na Igreja Cristã-Ortodoxa da cidade. Sua família era cristã-ortodoxa de Marjayoun, a poucos quilômetros de Rachaya, terra do meu avô, também cristão grego-ortodoxo. Eu poderia ser a vítima se meus avós tivessem imigrado para os EUA. Eu seria o “Dirty Arab”.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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