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Por que a reação de Erdogan é assustadora para a Turquia?

gustavochacra

20 de julho de 2016 | 12h28

A democracia na Turquia corre enorme risco e hoje o governo de Recep Tayyp Erdogan não pode ser considerado democrático. Já não era nos últimos anos, quando começou a desrespeitar a divisão de poderes e a liberdade de imprensa. Agora, até mesmo a livre circulação de pessoas tem sido impedida.

Acadêmicos turcos estão proibidos de deixar o país. Dezenas de milhares de membros das forças de segurança, incluindo o Exército e a polícia, foram presos ou afastados. O mesmo vale para milhares de juízes e professores. A ação de Erdogan está na cartilha de regimes ditatoriais. A imprensa também é controlada e censurada.

O argumento de Erdogan é de que todas estas pessoas são gulenistas. Primeiro, não é crime ser gulenista. Eles integram um movimento que prega uma versão tolerante do islamismo sunita, em busca de dialogar com outras religiões e condenar o terrorismo. O movimento também valoriza a educação (no sentido acadêmico) e valores profissionais. Sim, gulenistas interferiram na política turca no passado de forma condenável. Mas o fizeram justamente para defender seu então aliado Erdogan de facções seculares. Depois do rompimento, viraram inimigos. Alguns dizem que funciona como Estado paralelo, mas creio que isso seja um exagero, embora o movimento seja sim poderoso.

Em segundo lugar, é impossível saber se todas estas dezenas de milhares de pessoas são gulenistas. Muitos têm sido afastados pelo simples fato de criticarem um governo que não respeita a democracia. Outros nem isso fizeram. Simplesmente são presos ou afastados sem provas.

Terceiro, o governo de Erdogan não tem provas de que os gulenistas estejam envolvidos na tentativa de golpe. O grupo e muitos de seus membros condenaram a ação quando esta ainda estava em andamento e parecia ser um sucesso. Pode ser sim, que membros estejam envolvidos. Mas isso precisa ser provado.

É desesperador o cenário na Turquia. Trata-se de uma nação de grau de desenvolvimento econômico e social no patamar do Brasil (em alguns pontos, mais evoluída do que o Brasil, sendo da OCDE), mas localizada na mais estratégica posição geográfica do planeta. Tem fronteira com o Irã, Iraque, Síria, Ex-União Soviética (Azerbaijão, Georgia e Armênia) e União Europeia (Grécia). Tem costa no Mar Negro, Mar Mediterrâneo e Mar Egeu. Istambul literalmente se divide entre Europa e Ásia. A Turquia é da OTAN.

A Turquia virar o caos, que ainda está distante, é infinitamente mais perigoso do que o que vemos na Síria. Em tempo, a tentativa de golpe também feriu a democracia turca e deve ser condenada.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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