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Por que a Síria precisa voltar a ser da Civilização Levantina como Líbano e Israel?

gustavochacra

28 Janeiro 2016 | 13h22

As divisões no mundo são completamente arbitrárias. Conforme já escrevi aqui antes, muitos brasileiros se consideram ocidentais, embora nos EUA e na Europa a maioria das pessoas não considere o Brasil parte do Ocidente.

Na divisão por civilizações de Samuel Huntington, foi delineado um mundo islâmico. Esta generalização coloca no mesmo grupo nações completamente diferentes como a Indonésia e o Irã, que não falam a mesma língua, tem histórias completamente distintas e sem inter-relação e, para completar, seguem vertentes distintas do islamismo – indonésios são majoritariamente sunitas e iranianos são majoritariamente xiitas. Curiosamente, ambas tem em comum apenas o fato de não serem árabes.

A Síria sempre é colocada no grupo de “mundo islâmico”. Vá lá, não está errado. A maioria da população é muçulmana. Mas, na verdade, a Síria pouco tem em comum com a Arábia Saudita e os outros países do Golfo Pérsico. Aquela figura de fantasia de árabe no carnaval ou de uma mulher de burqa não existe na Síria.

A Síria, na verdade, é historicamente levantina.

Levantina por

. ter nas suas origens o comércio desta região do Mediterrâneo oriental, com intercâmbio com o restante da região e com a Europa

. ter tido uma mistura de etnias no passado (gregos, árabes, turcos, armênios)

. ter tido uma mistura de línguas no passado (árabe, turco, armênio, grego, dialetos italianos, sabir, aramaico)

. ter uma mistura de religiões até hoje (sunitas, alauítas, xiitas, drusos, cristãos melquitas, cristãos ortodoxos, cristãos maronitas, cristãos assírios e judeus).

Similar à Síria, temos a Turquia, o Líbano, Chipre, Israel, Palestina e Egito. Esta região forma uma civilização que deveria ser classificada como Levantina. É generalização? Um pouco. Mas Aleppo, por séculos, tinha muito mais em comum com Haifa, em Israel, do que com Riad. E Beirute, até hoje, tem muito mais em comum com Tel Aviv do que com qualquer capital árabe.

O problema é que o arabismo começou a estragar a Síria e o Egito. O estatismo massacrou a cultura comercial e multicultural destes países, que deixaram de ser tão parecidos com o Líbano, Israel, Chipre e Turquia. O radicalismo islâmico, que observamos nos últimos cinco anos, embora venha crescendo há três décadas, foi o golpe final.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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