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Por que Abbas reconheceu o Holocausto e Kerry adverte que Israel pode virar um Apartheid?

gustavochacra

28 de abril de 2014 | 11h34

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, inicialmente parecia ter adotado a estratégia errada na sua negociação com Israel ao decidir fazer um pacto com o Hamas. Eu mesmo o critiquei. Mas, aos poucos, sua estratégia demonstra ser bem mais sofisticada e, provavelmente, existe coordenação com a Casa Branca.

Primeiro, Abbas deixou claro que não desistiu de negociar. Afirma claramente que, se Israel libertar a quarta leva de prisioneiros conforme acordado, ele seguirá negociando. Tampouco voltou atrás em concessões, como a permanência de tropas israelenses no vale do Rio Jordão por cinco anos, sendo substituída, em uma transição, por forças da OTAN.

E o Hamas? Este é o segundo ponto. O Hamas não bloqueou as negociações e há indicações de que o grupo ingressará na OLP. Automaticamente, reconheceria Israel. E deu carta branca para Abbas negociar. Europeus e mesmo alguns membros do governo americano celebraram o acordo e avaliam que Abbas agora negocia em nome de todos os palestinos, exatamente como todos cobravam, inclusive Israel. Óbvio que não será de repente, mas o Hamas abdicar do terrorismo está na mesa.

Terceiro, e mais importante, Abbas enviou uma histórica mensagem para Israel ao dizer claramente que o Holocausto foi o maior crime da história moderna. E o recado foi em árabe, hebraico e inglês para não restar dúvida. Antes, não podemos esquecer, o líder palestino escreveu uma tese de doutorado na Rússia questionando o genocídio de 6 milhões de judeus e outras minorias como os roma.

Por último, Abbas sabe que a maré está a seu favor. Mesmo depois do anúncio do pacto com o Hamas, encerrando sete anos de conflito, o secretário de Estado John Kerry optou não por criticar os palestinos, mas sim o governo israelense ao dizer que Israel pode se tornar um Estado de Apartheid.

Eu escrevi aqui uma série de vezes que Israel é uma nação desenvolvida, com enormes avanços na indústria farmacêutica, tecnológica e agrícola. Caso seja criado um Estado palestino, será certamente um dos países mais admiráveis do planeta, e praticamente imune a críticas – democrático, desenvolvido, multicultural e liberal em questões sociais e econômicas. Sem a ocupação e com um Estado palestino, será quase perfeito – uma espécie de norte da Califórnia no Mediterrâneo. Mas, se a ocupação continuar, a narrativa de Apartheid vai crescer. Um ex-presidente (Jimmy Carter) já usou esta palavra. Agora, até mesmo um secretario de Estado. Sem falar os que não têm coragem.

Netanyahu precisa se espelhar mais em Yitzhac Rabin e se distanciar de figuras como Naftali Bennet e Danny Ayalon. 

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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