As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que é deplorável a Turquia convocar o embaixador no Brasil?

gustavochacra

10 de junho de 2015 | 10h28

A Turquia, em atitude deplorável, convocou seu embaixador em Brasília para protestar contra o reconhecimento, por parte do Senado do Brasil, do Genocídio Armênio, que ocorreu há cem anos e foi cometido pelo então Império Otomano. Cerca de 1,5 milhão de armênios foram massacrados pelas forças otomanas ou expulsos para o deserto de Deir Ez Zour, hoje na Síria, onde dezenas de milhares morreram de fome.

Alguns conseguiram chegar a Damasco e Beirute, onde foram abrigados pelas comunidades sírias e libanesas. Parte deles seguiu viagem e, junto com sírios e libaneses, imigrou para outros países, especialmente Estados Unidos, Argentina, Brasil e França. Esta Diáspora, há décadas, pede o reconhecimento internacional do genocídio. Franceses, argentinos, uruguaios, libaneses, sírios e até o Papa Francisco, entre outros, reconhecem. Lamentavelmente, muitos países ainda formalmente não o fazem.

No caso do Brasil, o reconhecimento não é do Poder Executivo, mas do Senado. Ainda assim, um avanço. A decisão da Turquia é grotesca e visa usar o Brasil para dar um sinal aos EUA e a Israel sobre qual será a postura do governo de Ancara casos estes ajam como os brasileiros. Tanto os governos americanos como o israelense não reconhecem o Genocídio – o primeiro pela OTAN e o segundo por ser um dos raros países na região com quem mantêm (ou mantinha) boas relações. E falo dos dois porque os EUA são a maior potência mundial e Israel é o país do povo que sofreu o maior genocídio do século 20. Como curiosidade, antes de prosseguir, o cidadão Barack Obama reconhece o genocídio, enquanto o presidente Barack Obama, não.

Voltando à disputa Brasil-Turquia, negar o Genocídio Armênio equivale a negar o Holocausto ou os genocídio no Camboja e em Ruanda. Há ampla documentação histórica comprovando. Imaginem se a Alemanha convocasse seu embaixador em Brasília porque o Senado brasileiro reconheceu o Holocausto? Assim como Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, foi corretamente condenado por questionar o genocídio de judeus, romas (ciganos) e outras minorias na Segunda Guerra, o mesmo deve ocorrer com quem questionar o Genocídio Armênio.

EUA, Israel e todos os países devem reconhecer o quanto antes. A Turquia que reclame, convoque embaixadores e siga negando a história. Aliás, o ideal seria a Turquia agir como a Alemanha e reconhecer que houve genocídio. Quem não tem mancha no passado? Os EUA e o Brasil tiveram escravidão. Jé pensou convocarmos embaixadores porque disseram ter havido escravidão no Brasil? A França, há 50 anos, teve a Guerra da Argélia. Faz 100 anos que ocorreu o genocídio. E era Império Otomano, não Turquia. Por que os turcos ainda brigam tanto por esta questão?

Para completar, o Itamaraty, em vez de dar explicações ao governo turco, tem mais é de convencer a presidente Dilma a seguir o Senado e reconhecer o Genocídio Armênio.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus.