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Por que é difícil achar soluções para o Irã, clima e a reforma do sistema de saúde?

gustavochacra

19 de dezembro de 2009 | 14h58

O resultado do encontro na Dinamarca ficou aquém do esperado. Assim como os Estados Unidos e a Rússia adiaram a assinatura de um novo tratado para a redução nos seus arsenais nucleares. A aprovação da reforma do sistema de saúde americano está nas mãos de alguns poucos senadores. Tampouco há em vista uma solução para as questões iranianas e da Coréia do Norte. E, provavelmente, a soluções para estes conflitos não agradará quase ninguém.

1 – Em todos estes casos, existe, primeiro, a necessidade de definir qual é o problema. Na Dinamarca, é o aquecimento global. Entre EUA e Rússia, o elevado número de armamentos que podem destruir o planeta. Na reforma do sistema de saúde, as milhões de pessoas que não podem pagar seus tratamentos. Na Coréia do Norte e do Irã, o risco de um país adquirir armas que desestabilizem suas regiões.

2 – O segundo passo está em definir quais os atores em jogo. Na Dinamarca, são os grandes países, cientistas, grandes empresas e organizações não-governamentais. No de Rússia e EUA, apenas os dois países. Na reforma do sistema de saúde, os senadores americanos com todos os interesses que eles representam. Na Coréia do Norte e no Irã, os Estados e a Agência Internacional de Energia Atômica.

3 – O terceiro passo está em definir como será o processo para alcançar a solução. Na Dinamarca, foram realizadas reuniões ao longo de meses para culminar em uma cúpula de duas semanas. Nos EUA e na Rússia, as negociações também duram anos. A aprovação da reforma do sistema de saúde é negociada por senadores, deputados e o governo, que precisa aprová-la no Congresso. No caso do Irã e da Coréia do Norte, não fica claro como é o processo. Existem reuniões esporádicas e resoluções na ONU.

Agora, vejam por que é difícil ter uma solução em cada uma delas

Dinamarca –
São dezenas de países com interesses completamente distintos. O veto de um Brasil, China, Índia, Rússia ou EUA pode provocar o colapso do acordo. A saída para agradar a todos é reduzir ao máximo o escopo do tratado, tirando as partes que afetam cada um destes países. É ingênuo achar que a China adotará determinada posição apenas porque ativistas ambientais querem. Na verdade, nos EUA, por exemplo, expressivo percentual da população é contra. E não dá para convencê-los que você está certo e eles errados. Justamente porque eles tentarão fazer a mesma coisa. Todos usarão as suas forças e haverá um resultado final provavelmente que desagradará a todos.

EUA e Rússia – Nenhum dos dois lados tomará qualquer medida que os enfraqueça. Basicamente, a redução no arsenal nuclear estratégico manterá os dois países com capacidade para destruir o mundo. Porém, no caso dos russos, as armas táticas possuem mais importância. Afinal, eles não destruirão o planeta por causa de um conflito com a Geórgia. Mas armas táticas, no extremo, podem ser utilizadas e também garantem a segurança. Não há porque imaginar que Moscou abdique delas. O resultado será o mínimo possível, mas que servirá simbolicamente para espalhar a mentira de que Rússia e EUA um dia eliminarão seus arsenais

Reforma no Sistema de Saúde – Os EUA têm um sistema bipartidário. No Senado, há cem senadores. Para aprovar a reforma, são necessários mais de 60 votos. Isso inclui todos os democratas, mais pelo menos um republicano e o independente Joe Lieberman. O problema é que, quando se chega a 58, o republicano que falta, Lieberman e o senador democrata conservador Ben Nelson começam a impor as suas vontades. No fim, eles passam a ter mais poder até do que o presidente. Os outros democratas sabem que, se quiserem uma reforma mais profunda, não conseguirão aprovar. E os demais republicanos não votarão de qualquer forma. O resultado será uma reforma que agrada apenas a Lieberman, Nelson e uma senadora republicana do Maine

Irã – O regime iraniano não está preocupado com a segurança de Israel, da Arábia Saudita ou do Leste Europeu. Eles apenas sabem de uma coisa – o Paquistão e a Coréia do Norte possuem armas nucleares e, por causa disso, na visão iraniana, não foram invadidos. Israel também sobrevive porque tem bomba atômica. Os que não tinham, como o Afeganistão e o Iraque, foram invadidos pelos EUA. Logo, diplomaticamente, não haverá uma solução. Além disso, os iranianos não entendem como EUA, França, Reino Unido, China e Rússia e podem reclamar de armas atômicas se eles próprios possuem. Por acaso, você imagina que um iraniano de Teerã considera um americano do Texas ou um francês de Lyon superiores? Verdade, pode até haver um acerto provisório. Mas os iranianos seguirão adiante com um programa secreto, caso o regime permaneça no poder. Portanto, há três opções. 1)Atacar militarmente o Irã, que pode não resultar em nada, a não ser aumentar a vontade iraniana de ter uma bomba (a menos que sena uma ampla operação, bem superior às do Afeganistão e do Iraque, devido ao tamanho do Irã); 2) Aceitar que o Irã tenha a capacidade de desenvolver armas nucleares, ainda que não as fabrique (que é, aliás, a previsão dos teóricos dos jogos); 3) Torcer para que os opositores se fortaleçam e o regime seja derrubado internamente, levando em conta que o programa nuclear seria abandonado – foi o que ocorreu na África do Sul. O ideal, na minha avaliação, seria a terceira

Coréia do Norte –
Não mudará nada. Os norte-coreanos têm a bomba e o regime não abdicará enquanto estiver no poder

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