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Por que é errado um conservador apoiar um populista xenófobo?

gustavochacra

03 Junho 2016 | 10h53

Era muito difícil não respeitar o republicano Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados, mesmo discordando de algumas de suas posições. Um político íntegro, sem escândalos e com posições firmes sobre como vê o futuro dos Estados Unidos. Basicamente, um Barack Obama dos republicanos.

Os  EUA, para Ryan, devem defender o livre mercado, com um Estado pequeno e eficiente e uma política externa realista. O presidente da Câmara também condena discursos polarizantes envolvendo minorias. Por este motivo, Ryan se mostrou relutante por meses em apoiar Donald Trump, vencedor das primárias de seu partido, para a Presidência dos EUA.

Afinal, Trump é protecionista em economia, defende gastos maiores do governo e tem uma política externa classificada como imatura e perigosa mesmo por analistas ligados ao próprio Partido Republicano. Além, claro, de atacar mexicanos (termo que ele usa de forma generalizante para latino-americanos, incluindo os brasileiros), muçulmanos, mulheres e deficientes físicos. O próprio Ryan criticou Trump uma série de vezes por propagar este discurso de ódio.

Nesta quinta, porém, Ryan anunciou em uma coluna em jornal de Wisconsin que apoiará Trump para presidente. Seus argumentos foram fracos, pois o presidente da Câmara basicamente discorda em tudo de Trump. Ryan é um conservador tradicional. Trump é um populista xenófobo.

Esta decisão de apoiar Trump perseguirá Ryan por muitos anos independentemente de o republicano ser eleito ou não. A possibilidade de ser presidente sem dúvida diminuirá. Se Trump vencer, Ryan perde porque sua ideologia conservadora perderá espaço de vez para o populismo de Trump. Se Trump for derrotado, Ryan será criticado por ter apoiado um populista.

Outros republicanos, como o também jovem senador Bob Sasse, devem ser fortalecer por terem se mantido íntegros a seus ideais conservadores, sem ceder por o discurso de ódio de Trump.

O mesmo vale para a republicana Família Bush – os dois ex-presidentes George Bush e George W. Bush e o ex-governador da Florida Jeb Bush. Nenhum deles apoiará Trump. Simplesmente, não aceitam o discurso de ódio. Mitt Romney, candidato republicano nas eleições de 2012, também se recusa a apoiar uma figura como Trump e segue criticando o candidato de seu partido todos os dias.

Ryan, que foi candidato a vice na chapa de Romney, tem o argumento de que não quer ver Hillary vencer. Obviamente, o presidente da Câmara não tem como votar na democrata sendo o maior líder republicano. Mas poderia simplesmente não votar em ninguém para presidente, como os Bush e Romney, ou apoiar alguém com ideais mais próximos do dele, como o ex-governador do Novo México Gary Johnson, candidato do Partido Libertário, ainda que simbolicamente.

Ryan, com potencial para ser o maior político dos EUA de sua geração, se mostrou apenas um político comum. Pior – Trump não o respeitará. Romney e os Bush, além do moderado governador de Ohio John Kassich, seguem íntegros ao não abandonarem seus valores. E Bob Sasse ultrapassará Ryan como o homem do futuro dos republicanos ao não aceitar apoiar um populista xenófobo para presidente dos EUA.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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