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Por que é mentira dizer que árabes se preocupam mais com Gaza do que com a Síria?

gustavochacra

31 de julho de 2014 | 10h56

Por que, ao contrário do que diz uma bizarra campanha de relações públicas tentando calar críticos, os países árabes condenam mais Bashar al Assad do que Israel e se preocupam mais com a Guerra da Síria (ou a do Iraque) do que com a de Gaza? A questão é interessante, e vai contra esta campanha de relações públicas que insiste em dizer o contrário – que os árabes e muçulmanos ignoram a Guerra da Síria e se preocupam com a de Gaza porque envolveria Israel e judeus.

 Mito 1 – Imprensa se preocupa mais com Gaza do que com a Guerra da Síria

A Guerra da Síria recebeu gigantesca cobertura da imprensa, bem maior do que a de Gaza. Infelizmente, muita gente ignora. Apenas este humilde jornalista escreveu 600 textos sobre a Guerra da Síria, além de dezenas de comentários para TV e Rádio. Em alguns momentos, como quando durante o uso das armas químicas, o conflito sírio chegou a parar o Congresso dos Estados Unidos e as redes de TV americanas  interromperam suas programações apenas para transmitir o andamento da guerra, que domina os debates no Conselho de Segurança da ONU há mais de dois anos

 Mito 2 – Países árabes se preocupam mais com Gaza do que com a Guerra da Síria

A Síria foi expulsa da Liga Árabe. Já no caso de Israel, o Egito hoje é o maior aliado de Benjamin Netanyahu. A Jordânia sequer convocou seu embaixador em Tel Aviv. Arábia Saudita e Emirados Árabes mantém uma neutralidade de viés pró-Israel. De todo o mundo árabe, apenas o Qatar estaria solidário com o Hamas e ainda assim apoiando um cessar-fogo

Mito 3 – Países árabes armam o Hamas, mas ignoram a Guerra da Síria

Países árabes, como a Arábia Saudita e Qatar, armam opositores sírios, muitos deles ligados à Al Qaeda, apenas para lutarem contra Assad. Também financiam estas organizações. Nenhum país árabe arma o Hamas, que luta contra Israel

Mito 4 – Países retiram embaixador apenas de Israel

Quase todos os países, incluindo o Brasil, retiraram seus embaixadores de Damasco, seja por questões de segurança ou por oposição ao regime

 Mito 5 – Assad matou 150 mil e ninguém fala nada

Ao contrário do que dizem, Assad não é responsável pela morte de 150 mil pessoas. Este número representa o total de vítimas de uma Guerra Civil. Muitos dos mortos são militares sírios lutando a favor do regime e civis que apoiam Assad. Parte elevada dos mortos também se deve a conflitos intra-oposição. Por último, este não é um conflito apenas entre muçulmanos, como muitos descrevem incorretamente, visto que muitos cristãos lutam a favor do regime de Assad (que é laico e apoiada pela Rússia, historicamente defensora dos cristãos na região) e são vítimas do radicalismo religioso da oposição apoiada pelo Ocidente e pelos países do Golfo

Mito 6 – Árabes não se preocupam com a perseguição aos cristãos do Iraque

 Os cristãos iraquianos viviam bem no Iraque até os EUA invadirem o país em 2003. Eles estavam no alto escalão do governo de Saddam (o número 2 do regime era o cristão Tariq Aziz). Com a presença das tropas americanas e o crescimento da antes inexistente Al Qaeda no Iraque (que se tornaria o ISIS anos depois), os cristãos precisaram buscar refúgio com Assad, na Síria, que historicamente  os protegia. Agora, mais uma vez no Iraque, cristãos que ainda estavam no país passaram a ser perseguidos pelo ISIS. A Síria, mais uma vez, e o Líbano foram os primeiros a se levantar para receber os cristãos e apoiá-los. Inclusive, canais de TV do Líbano (um país onde o presidente por lei precisa ser cristão, assim como metade do Parlamento) mudaram seus símbolos para o que representa os cristãos iraquianos. Muitos libaneses e sírios fizeram o mesmo com seus perfis. O tema chega a ocupar um espaço quase similar à Guerra de Gaza em jornais de Beirute

Mito 7 – Países árabes não faazem nada por refugiados sírios

O Líbano recebeu 1 milhão de refugiados sírios, em um território menor do que o Sergipe e com uma população de 4 milhões. A Jordânia construiu cidades para receber os refugiados. O único país vizinho a não receber refugiados foi Israel. Sim, tratou algumas centenas de feridos. Mas o Líbano, com menos recursos, trata dezenas de milhares. E o argumento de Israel não ser árabe e ser inimigo de Assad não se sustenta. A Turquia também não é árabe e é inimiga de Assad, tendo recebido centenas de milhares de refugiados

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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