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Por que Erdogan deixou de ser o “Lula turco” para virar o Putin da Turquia?

gustavochacra

05 Maio 2016 | 12h05

A Turquia, no começo deste século, estava em um patamar parecido com o do Brasil. Uma economia emergente, com a democracia se consolidando. Assim como no Brasil, um partido que era visto com suspeitas por muitos chegou ao poder.

O AKP tem um viés mais religioso. Seu líder era e é Recep Tayyp Erdogan. Como premiê, Erdogan, de uma forma similar a Lula e o PT (no caso com um viés esquedista em vez de religioso), conseguiu resultados positivos na economia. Era elogiado no exterior, especialmente nos EUA e na Europa. Sua política externa conseguia ao mesmo tempo manter alianças com Israel, Irã, EUA, Rússia, Síria e Arábia Saudita.

Erdogan também decidiu negociar a paz com os movimentos separatistas curdos, a negociar uma saída para a divisão do Chipre  e a ser menos radical do que seus antecessores na questão do genocídio armênio.

Aos poucos, a partir de 2009, isso começou a mudar. Foi um pouco similar ao que ocorreu no Brasil, que também entrou em crise nos últimos anos. Este processo se intensificou a partir de 2011. As relações com Israel e Rússia se deterioraram. Com a Síria, foram rompidas e a Turquia passou abertamente a apoiar grupos rebeldes. Negociações com os curdos entrarão em colapso. E a economia, da mesma forma que a brasileira embora em intensidade menor, começou a desacelerar.

Mas, enquanto a Justiça brasileira atua de forma independente e investiga o PT e seus aliados, a da Turquia passou a ser usada pelo governo do AKP. Antes democrata, Erdogan decidiu cada vez mais concentrar poderes nas suas mãos. Passou a censurar a imprensa como em uma nação ditatorial. Fecha jornais e persegue opositores. Impedido de seguir como premiê, virou presidente em uma nação parlamentarista. Para aumentar seu poder, luta para transformar o país em um presidencialismo de viés autoritário.

E esta iniciativa de Erdogan, somada a algumas outras, levou Davutolglu, ex-chanceler e atual premiê da Turquia, a renunciar ao cargo hoje. Nem ele, aliado de Erdogan há décadas, aguenta as ambições ditatoriais de Erdogan.

E se enganam aqueles que acham que Erdogan queira transformar a Turquia em uma Arábia Saudita. O premiê também persegue religiosos islâmicos. O objetivo de Erdogan é transformar a Turquia, uma nação que era parecida com o Brasil, em uma Rússia. E ele, antes chamado apelidado de Lula da Turquia, seria o Putin dos turcos.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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