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Por que eu defendo uma intervenção terrestre contra o ISIS (Daesh)?

gustavochacra

21 de novembro de 2015 | 19h10

Sou contra intervenções internacionais para mudança de regime, como vimos nos enormes fiascos no Iraque, para remover Saddam Hussein, e na Líbia, para remover Muamar Kadafi. Por este motivo, acho totalmente errada qualquer proposta de ação para depor o regime de Bashar al Assad na Síria. Se todas os regimes não democráticos precisassem ser depostos, passem a defender intervenções no Sudão, China, Egito, Arábia Saudita, Venezuela, Cuba e até mesmo na Rússia.

Além disso, o regime de Assad não atacou a França ou os EUA. De fato, cometeu crimes contra a humanidade internamente, de acordo com a ONU (Sudão e Egito também). Ao mesmo tempo, mantém relativa estabilidade nas áreas que controla e defende minorias religiosas, como os cristãos, os alauítas e os drusos. Sua remoção forçada provocaria um caos ainda maior e o risco enorme de massacres contra os que o apoiam. O ideal seria uma transição negociada, com a manutenção dos pilares do regime em Damasco, diferentemente do que ocorreu em Trípoli e Bagdá.

O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, não é um regime, mas sim um Grupo Terrorista que controla um território e não tem reconhecimento internacional. De uma certa forma, lembra o Taleban, que deu guarida à Al Qaeda no 11 de Setembro.

George W. Bush corretamente é condenado pela Guerra do Iraque. Mas, no Afeganistão, apesar de algumas falhas, não há muitas críticas. A ação militar contou com respaldo internacional, foi realizada dentro do âmbito da OTAN e não sofreu oposição de nenhum país. Para completar, o Taleban abrigava a Al Qaeda e, mesmo depois de ultimato, não concordou em entregar os terroristas. Hoje, mesmo com o Taleban ainda não totalmente derrotado, o Afeganistão está melhor do que antes da guerra.

O ISIS atacou um avião russo, atacou civis libaneses e atacou civis franceses. Toda a comunidade internacional repudia esta organização terrorista. É um dos raros temas que une os EUA, Rússia, Israel, Irã, Líbano, Síria (regime de Assad) e França. Pode não ser a prioridade da Turquia e da Arábia Saudita, mas mesmo estes dois países sabem dos riscos desta organização, apesar da relação ambígua com o grupo.

Por este motivo, a intervenção militar precisa ser ampliada, com o uso de tropas terrestres. O ideal seria usar soldados da região e de preferência sunitas, com amparo de forças americanas e de outros lugares do Ocidente. Não adianta usar soldados xiitas, como vemos no claro fracasso do bem treinado Exército do Iraque, incapaz de retomar Mossul.

Para atingir este objetivo, o governo do Iraque precisa urgentemente se tornar mais inclusivo, com uma presença maior de sunitas. Só com o apoio dos sunitas moderados dá para derrotar os radicais sunitas que seguem a vertente wahhabita do Islamismo do ISIS. Os habitantes de Mossul, no Iraque, tem tanto medo do ISIS quanto das milícias xiitas apoiadas pelo Irã.

Na Síria, o regime de Assad e a oposição têm de adotar um cessar-fogo e unirem forças para combater o ISIS. Esta precisa ser a prioridade. Não faltam sunitas no governo de Assad, apesar de ele ser laico e alauíta de nascimento. Seus dois vices, o premiê, o chanceler, o ministro da Defesa e o chefe das Forças Armadas são sunitas. Raqaa tem de voltar a ser aquela cidade agradável do interior da Síria, onde os habitantes fumavam narguilé às margens do Eufrates.

Em outro post, falarei do combate à ideologia wahabbita.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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