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Por que não falo do conflito em Gaza? Porque escrevi tudo em 2009

gustavochacra

10 de julho de 2014 | 11h32

O conflito de hoje na Faixa de Gaza lembra exatamente o de 2009. Se duvidarem, vejam este texto que escrevi na época, quando cobri a guerra em Israel

POEMA DE BORGES AJUDA A ENTENDER CONFLITO EM GAZA

Acabo de voltar de Sderot. Com a lembrança do texto “John Ward e Juan Lopez”, do escritor Jorge Luis Borges, sobre o encontro de um inglês e um argentino na Guerra das Malvinas, que poderia ser aplicado com certeza à situação na faixa de Gaza.

“O planeta havia sido dividido em distintos países, cada um com suas lealdades, suas queridas memórias de um passado sem dúvida heróico, de certos e errados, de uma mitologia peculiar, de próceres de bronze, de aniversários, de demagogos e de símbolos. Esta divisão arbitrária favorece as guerras. López nasceu na cidade junto ao rio imóvel. Ward, nas cercanias da cidade por onde andou Padre Brown. Estudou castelhano para ler Quixote. O outro professava o amor de Conrad que lhe havia sido revelado em uma aula na rua Viamonte. Teriam sido amigos, mas se viram apenas uma vez cara a cara, em umas ilhas muito famosas, e cada um deles foi Caim, e cada um, Abel. Eles foram enterrados juntos. A neve e a corrupção os conhecem. O incidentes a que me refiro ocorreu em um tempo que não podemos entender”

Neste exato momento, um soldado israelense de 18 anos está preparado para uma ofensiva terrestre na faixa de Gaza. Seu nome pode ser Ehud. Com certeza, é um jovem com sonhos, que escuta iPod, posta vídeos no Youtube, tem namorada, quer estudar nos Estados Unidos, assiste a filmes, torce pelo Manchester United e acabou de terminar um livro. Para ele, seus heróis são Ben Gurion e Menachen Begin. Na sua memória, 1948 é o ano da independência de seu país. O ano de 1967 é o ano da reconquista de Jerusalém, quando os judeus puderam voltar a rezar no Muro das Lamentações. Seu objetivo é defender seus conterrâneos que são alvejados por mísseis diariamente em Sderot.

Do outro lado, está um militante palestino também de 18 anos. Seu nome pode ser Ahmed. Também está preparado para a luta, dentro da faixa de Gaza, à espera dos israelenses. Certamente tem sonhos, gosta de ver filmes, provavelmente não tem iPod, mas com certeza navega na Internet, lê livros e acompanha os jogos do Arsenal. Para ele, seus heróis são o xeque Yassin e Yasser Arafat. Na sua memória, 1948 é o ano do Nakba, da tragédia palestina, quando seus avós e pais perderam as suas terras. O ano de 1967 é o do início dos assentamentos e do fim de qualquer possibilidade de conhecer a Mesquita de Al Aqsa em Jerusalém. Seu objetivo é derrotar o inimigo que, na sua cabeça, roubou suas terras e destrói com bombardeios o seu território.

Os dois vão se encontrar, sem nunca terem se visto, e podem se somar às milhares de vítimas de um conflito que, ao contrário do das Malvinas, dificilmente terminará tão cedo. A tragédia dos dois é bem maior do que a de Ward e López.

Obs. No fim do conflito, 1.300 palestinos morreram, 13 israelenses (8 por fogo amigo) e a ação militar não conseguiu interromper o lançamento de foguetes pelo Hamas no longo prazo. Uma nova operação de bombardeios israelenses para conter os disparos do Hamas ocorreu em 2012. Não adiantou. Agora haverá outra. Não vai adiantar

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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