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Por que não tenho saudade sem ir ao Brasil há um ano? As saudades morreram…

gustavochacra

04 Setembro 2017 | 12h20

Faz um ano que não viajo ao Brasil. Nunca fiquei tanto tempo longe do país onde nasci. Sinto falta, mas não sinto tantas saudades. E imagino que o mesmo se passe com quem mora no exterior. Simplesmente, o avanço da comunicação está matando o sentimento de saudade. Claro, este não seria o único fator, especialmente no meu caso – trabalho para empresas brasileiras, tenho muitos amigos brasileiros em Nova York, uma cidade global, minha mulher é brasileira, meus pais vieram para cá algumas vezes e, claro, nasceu minha filha.

 

Mas, mesmo assim, eu poderia sentir saudades do Brasil. Quando morei aqui nos EUA por um semestre no intercâmbio em 1993, não tinha internet na minha casa americana e eu sequer sabia usar para falar a verdade. E eu morria de saudades. Trocava cartas com meus amigos e falava no telefone fixo com meus pais por uns 10, 15 minutos no domingo à noite porque era mais barato. Não assisti televisão brasileira todo este período, não encontrei nenhum brasileiro e meus amigos do Brasil eram a tinta de caneta em um papel onde nossas frases demoravam uma semana para ir e ainda outra semana para recebermos uma resposta. O que fazemos em 10 segundos hoje demorava 15 dias 25 anos atrás. As fotos não se reciclavam como hoje. Eram aquelas 3 ou 4 que levamos para ver de vez em quando. Não sabia das enchentes do Brasil, não vi o Palmeiras ser campeão brasileiro e tampouco assisti o Romário trucidando o Uruguai no Maracanã para nos classificar para a Copa.

 

Mesmo em 2005, quando me mudei para cá, era diferente. Até existia Skype, mas eu não tinha e poucos usavam. Mudou que, em vez da carta, me comunicava nos e-mails com os amigos. Um enorme avanço. Mas quase nunca falava com eles no celular porque era caro. Até existia o Orkut, que era uma rede social muito menos interativa do que o Facebook – e bem mais divertida porque não era um tempo de ódio. Mais importante, não tínhamos smartphone e, óbvio, não ficávamos o tempo todo conectados.

 

Agora, nosso avatar viaja o tempo para todos os lugares. Conversamos de graça com quem quisermos pelo whatsapp. Até dá para ver a pessoa pelo Facetime, Skype e mesmo o whatsapp, além de vários outros aplicativos. Passam todos os jogos de futebol brasileiro na TV dos EUA se você quiser pagar um pouco a mais pela assinatura. Os jornais podem ser baixados pelos aplicativos. Os programas de rádio e de TV também são acessíveis mesmo morando aqui. As pessoas no Brasil veem as mesmas séries de TV que nos EUA e no mesmo horário. Depois, debatem no Twitter o último episódio. No caso de Nova York, até os produtos brasileiros são achados em supermercados do Queens.

 

Fica complicado sentir saudades. Eu me toquei agora, ao longo do texto, que não vejo meu irmão do meio desde o 4 de setembro do ano passado. Mas parece que foi ontem de tanto que nos falamos o tempo todo nos whatsapps da vida. Aliás, me reaproximei de alguns amigos que eu não vejo há anos em grupos do whatsapp. No Brasil, talvez nunca mais nos falássemos não fosse o avanço da comunicação.

 

É assustador. Tem horas que parece que entrei em um episódio do Black Mirror ao redor de 2011, 2012 e nem percebi. Dá a sensação de que a Copa foi ontem, mas a próxima já será daqui alguns meses e o Brasil dos 7 a 1 é o favorito! Claro, o tempo passa rápido não apenas pela super conexão, mas também porque hoje um ano equivale a 1/40 da minha vida. Quando tinha 20 anos, era 1/20. Logo, se usar minha vida como referência, é um período menor.

 

E tem mais. Outro dia, decidi entrar no Google Maps e seguir o caminho a pé da casa dos meus pais em São Paulo ao clube Paulistano, que eu fazia todos os dias quando morava no Brasil e ainda faço quando visito. Tudo era muito familiar, não parecia tanto tempo. Se dissessem que eu desci no mês passado a Rua Padre João Manuel da Alameda Franca até a Rua Estados Unidos, eu acreditaria.

 

Até que na semana passada o furacão Harvey atingiu Houston. Fiquei pensando em tempestades e, de olhos fechados na cama, comecei a lembrar dos temporais em Juquehy, no Litoral Norte de São Paulo. Na minha cabeça, até então, eu só lembrava da praia ensolarada das fotos do Instagram. Ninguém coloca foto da chuva. E vieram as imagens dos ventos levantando a areia, das poças da água, do mar revolto, da chuva que nunca para, da falta de luz, dos jogos de tabuleiro ou de baralho em uma nostálgica época pré smartphone, de escutar o jogo do Palmeira no rádio carro tentando sintonizar a AM. E, finalmente, me lembrei daquela hora no fim de tarde que o tempo abre e dá para tomar um banho de mar. Isso sim dá saudades. Pena que não existe mais. E, logo, não morro mais de saudades. As saudades que morreram.