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Obama poderia surpreender e negociar a paz entre Israel e Irã

gustavochacra

05 de novembro de 2008 | 20h25

Escrevi aqui nos últimos três dias quais eram as propostas de campanha de Obama e McCain. Agora, o democrata foi eleito. Ele será o responsável pela política americana para o Oriente Médio nos próximos quatro anos. Difícil dizer como será o seu governo e qual marca ele deixará na história para a região. Pode ser que saia com um acordo de paz envolvendo Israel e um ou mais de seus vizinhos. A primeira aposta é na Síria. Não duvidem que ele possa incentivar uma negociação mais ampla, que englobe todos os países árabes, usando como base a proposta de paz capitaneada pela Arábia Saudita. O sonho de quase todas as pessoas que defendem a paz é um acordo entre palestinos e israelenses, no qual todos saiam satisfeitos. Utópico, para o Oriente Médio. Se houver mesmo este acordo, o provável é que os refugiados palestinos e os colonos judeus saiam perdendo.

Mas, se parece utopia uma paz israelo-palestina, o que dizer de uma israelo-iraniana? Acho que é difícil, mas não impossível.

No cenário atual, os iranianos querem uma arma nuclear. São realistas. Os EUA atacaram o Iraque e o Afeganistão, ambos vizinhos dos iranianos. Ao redor, há regimes hostis, como a Arábia Saudita e Israel. Os dois são bem armados. Os israelenses, inclusive, possuem armas nucleares. Em meio a essas ameaças, Teerã busca se defender. E o regime aprendeu que os americanos não têm coragem de intervir em países com armas atômicas. Foi uma lição que eles aprenderam com a Coréia do Norte e o Paquistão – e também de Saddam Hussein, que não estava armado. Ninguém em sã consciência acha que os iranianos queiram apenas desenvolver energia nuclear para fins pacíficos. Claro que querem a bomba atômica.

Por outro lado, os EUA e Israel também são realistas. Obviamente, não querem que os iranianos desenvolvam armas atômicas, pois
isso afetaria a balança de poder regional e deixaria Israel sujeito a um ataque nuclear que aniquilaria o país (e os palestinos por tabela). Os israelenses, como todos os países do mundo, usam de todas as suas forças para se defender. E, ao contrário dos americanos, têm apenas uma opção se quiserem impedir que o Irã tenha as armas – um ataque preventivo. Com enorme risco de fracasso.

Já os americanos têm outra possibilidade, além do ataque: a diplomacia, aliada às existentes sanções. Em um diálogo, os iranianos vão exigir garantias de segurança, de que não serão atacados. É possível? Creio que sim. Vários países têm tecnologia para desenvolver armas nucleares, mas optam por não produzir. Porque sabem que não correm riscos. Desta forma, os americanos teriam que dar garantias de que Israel não realizará um ataque preventivo. Mas Israel dirá que não confia nos iranianos. E começa um círculo vicioso. Neste ponto, entra a figura de Obama, que pode servir de árbitro, após ou mesmo durante o restabelecimento de relações dos EUA com Teerã. Pense bem, por que Obama não pode ir direto aos dois mais poderosos países da região e fazer a grande paz?

O novo presidente tem que tentar entender os problemas reais que envolvem Israel e o Irã. E se surpreenderá, ao ver que não são insolúveis. Os dois países não possuem fronteiras, têm inimigos em comum e podem se ajudar de muitas formas. O Irã tem energia, Israel tem tecnologia. O Irã pode conter seus aliados do Hezbollah, que é a maior ameaça a Israel, e até mesmo levar o grupo libanês a um acordo com o Estado judeu. Os israelenses podem ser um peso a favor dos iranianos, na balança de poder contra os sauditas. Os iranianos podem ajudar Israel na paz com a Síria, Líbano e palestinos.

Por enquanto, pode parecer loucura. Mas, após os americanos elegerem Obama, não duvidem de uma surpresa neste sentido. Especialmente porque, em meados do ano que vem, há uma enorme chance de o presidente do Irã não se chamar mais Ahmedinejad. Basta ninguém se meter com os iranianos. Uma nova operação Ajax, como a que derrubou Mohammed Mossadeq nos anos 1950, seria a opção mais equivocada neste momento. Em vez disso, é melhor se lembrar que, no Irã, os cerca de 30 mil judeus que habitam o país têm os direitos respeitados e possuem um representante no Majillis (Parlamento) – importante notar que, entre os muçulmanos, a proporção é de um representante para cada 150 mil iranianos.

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