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Por que ninguém fala do apoio da Arábia Saudita ao terrorismo mundial?

gustavochacra

14 de abril de 2015 | 12h42

O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, segue a ideologia wahabbita do islamismo. A Al Qaeda segue a ideologia wahabbita do islamismo. O Boko Haram segue a ideologia wahabbita do islamismo. O Al Shabab segue a ideologia wahabbita do islamismo. Verdade, esta ideologia não representa a totalidade do islamismo. Tampouco a totalidade do islamismo sunita. Longe disso. Nem mesmo a maioria dos sunitas são wahabbitas. Mas o regime de Arábia Saudita é seguidor e propagador da ideologia wahabbita, que tem crescido bastante no mundo islâmico, especialmente no Oriente Médio e na África, além de em parte de comunidades islâmicas na Europa.

No regime saudita, mulheres são alvos de apartheid. Minorias religiosas, como os xiitas, são perseguidas. Cristãos e judeus só entram no país como convidados. Há ligações de braços do regime saudita com todos os grupos terroristas acima citados, embora alguns de fato sejam inimigos do comando da família Saud. Aliás, o poder na Arábia Saudita passa de irmão para irmão, sem nenhuma liberdade democrática.

Ainda assim, tratam o regime saudita “como moderado” no Ocidente, onde o regime do Irã, inimigo dos wahabbitas, é tratado como o radical (embora realmente seja, mas na vertente xiita do islamismo). Por que? Porque de fato a Arábia Saudita nunca ameaçou formalmente os EUA. Isto é, não ficam gritando “Morte aos EUA” ou “Morte a Israel”. E colaboram com os americanos em uma série de áreas de segurança internacional, além de serem os maiores exportadores de petróleo do mundo.

Notem, no entanto, que o membro da Al Qaeda e um dos mentores do 11 de Setembro, Zacarias Moussaoui, diz abertamente que membros proeminentes do regime saudita financiavam a rede terrorista nos anos 1980. O ex-senador da Florida Bob Graham tem fornecido provas neste sentido, como se pode ver nesta matéria do New York Times. Sem falar que 15 dos 19 terroristas eram sauditas. Curiosamente, um dos poucos países a reconhecer o regime do Taleban era a Arábia Saudita.

Até décadas atrás, não havia esta disseminação de mesquitas e madrassas com a ideologia wahabbita pelo mundo. Outras ideologias, bem mais moderadas, tinham mais força. O crescimento desta ideologia ultra conservadora e extremista disseminada pelo regime saudita radicalizou nas últimas décadas parcelas da população muçulmana, mesmo alguns que não sejam wahabbitas (noto que há muitos wahabbitas pacíficos).

Grande parte da culpa pela radicalização do mundo islâmico e pelo surgimento de grupos radicais como ISIS, Al Qaeda, Boko Haram e Al Shabab é do regime em Riad. Não dá para esconder isso.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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