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Por que no Líbano é permitido ser aliado do Irã, mas de Israel não?

gustavochacra

24 de novembro de 2008 | 12h49

“O Estado [libanês] não pode permitir a presença ilegal de armamentos militares em seu território. Nem as armas das facções palestinas, nem as armas do Hezbollah”.

Frase de Amin Gemayel, ex-presidente do Líbano e líder da Phalange, um dos mais tradicionais partidos cristãos libaneses.

Ao escutar esta declaração, ficam algumas perguntas. Por que os cristãos, muitas vezes, são considerados os “maus” da história do Líbano e os xiitas os bonzinhos? Por que o Hezbollah pode homenagear seus mártires e os cristãos não? Amin Gemayel merece inúmeras críticas. Seu partido cometeu uma série de crimes durante a guerra civil. Mas quem não errou no Líbano? O Hezbollah? Amin Gemayel tem um discurso sectário, no qual defende os cristãos. Mas quem não tem no Líbano, o xeque Hassan Narallah, líder do Hezbollah? Nasrallah é superior porque seu filho foi “martirizado” em uma ação contra Israel? Bom, o filho de Gemayel, Pierre, foi assassinado em atentado. Seu irmão, Bashir Gemayel, principal líder cristão em décadas no Líbano, também foi morto em ataque terrorista. Em número de “mártires”, Gemayel supera Nasrallah.

Os cristãos, junto com xiitas, lutaram no sul do Líbano com o apoio de Israel. Controlaram aquela região por anos. Cometeram crimes e não permitiram que o Estado libanês tivesse presença na área. O objetivo deles era eliminar facções palestinas que haviam criado um Estado dentro do Estado no Líbano. No final, lutavam contra o Hezbollah, uma organização xiita apoiada pelo Irã. Os libaneses aliados de Israel perderam. Os libaneses aliados do Irã venceram.

Hoje o sul do Líbano e bairros de Beirute são controlados pelo Hezbollah, que tem um discurso sectário, além de ser apoiado por dois Estados estrangeiros – o Irã e a Síria. O Hezbollah não respeita a independência do Líbano e já levou o país a uma guerra inútil, na qual os libaneses pagaram com centenas de mortes para que a organização conseguisse a libertação, por parte de Israel, de um assassino terrorista como Samir Quntar – que nem era integrante do grupo.

A Phalange se desarmou depois da guerra civil, respeita o Estado libanês e hoje não é aliada de uma nação estrangeira. Ainda que fosse, por que é mais legítimo, como o Hezbollah, ser aliado do Irã do que de Israel? Por que quando o Hezbollah, com o apoio do Irã, controla o sul do Líbano, não dizem que se trata de uma ocupação estrangeira?

Até 2000, o sul libanês era controlado por cristãos e xiitas aliados de Israel que torturavam, prendiam e matavam pessoas. Agora, a região está nas mãos da milícia do Hezbollah, que também comete crimes, ainda que sob vigilância da Unifil (forças de paz da ONU no Líbano). A diferença é que uma era aliada de Israel e a outra do Irã. O objetivo talvez seja, nos dois casos, lutar pela independência do Líbano. Mas, na verdade, o Hezbollah, assim como a então milícia pró-Israel Exército do Sul do Líbano, apenas contribui para o enfraquecimento das instituições libanesas.

Pelo menos, os radicais cristãos da Phalange já entenderam que o Estado libanês deve estar acima de tudo. O Hezbollah ainda não. Os seus interesses, do Irã e da Síria parecem ser mais importantes dos que o do Líbano. Eles se consideram superiores moralmente aos phalangistas, com uma causa mais nobre. Por que?

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