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Por que nós também podíamos ser vítimas do atentado em Nice?

gustavochacra

15 Julho 2016 | 10h32

Nós podíamos ter sido uma das vítimas do atentado terrorista de ontem em Nice. Nós podíamos ter marcado nossas férias pela França em 2016. Podíamos ter decidido ir para a costa mediterrânea no dia da Queda da Bastilha para ver a queima de fogos no Passeio dos Ingleses, um calçadão a beira-mar que lembra o de Copacabana, inclusive com um hotel quase gêmeo ao Copacabana Palace chamado Negresco. Podíamos ter jantado um pouco mais cedo e ido tomar sorvete na praia. E podíamos estar com nossos filhos, pais e amigos no exato momento em que um terrorista dirigiu um caminhão em alta velocidade atropelando crianças e idosos, franceses e estrangeiros, homens e mulheres, cristãos, judeus, ateus, hindus e muçulmanos.

Estas são apenas mais algumas das vítimas do terrorismo. A França, junto com a Turquia, é o país mais alvejado pelo terrorismo na Europa. Em Istambul, turistas se preparavam para viajar ou para conhecer a cidade turca quando foram atacados por terroristas. Outros andavam pela movimentada Istklal quando morreram em atentado. Alguns sofreram com o terrorismo quando pararam para tomar água antes de visitar a Mesquita Azul.

No Oriente Médio, os moradores de Bagdá convivem com o terrorismo como os brasileiros convivem com assassinatos. Centenas morreram semanas atrás quando se preparavam para o iftar, como é conhecido o desjejum do Ramadã. Em Tel Aviv, onde o terrorismo também faz parte do dia a dia, jovens foram mortos por terroristas quando passeavam ou namoravam em um mercado novo. No Líbano e na Síria, não é muito diferente. Atentados terroristas já mataram centenas nos últimos anos. Mesmo Bangladesh não escapou. As vítimas tomavam um expresso quando foram mortas. Na Arábia Saudita, os terroristas não pouparam sequer algum dos lugares mais sagrados do islamismo. Em Orlando, o terrorista alvejou uma boate gay em dia de noite latina em Orlando.

Não sabemos os detalhes do atentado em Nice. Vou escrever com mais calma e informações mais tarde. Mas sei que eu e vocês leitores podíamos ter sido alvo. Minha mulher passou o 14 de Julho de 2004 em Nice. Nós nos despedimos na estação de trem dias antes, quando embarquei para Paris. Se o atentado tivesse sido naquela data, minha filha Julia não teria nascido. Eu fui algumas vezes a Nice. Estive na cidade com um amigo em julho de 1997. Estive sozinho um ano antes. Voltei posteriormente com a minha mãe. Anos mais tarde, com o meu pai. Desta vez, lembro de alguns americanos mórmons simpáticos tentando me converter. Acabei em um jogo de polo aquático na piscina de Nice. A última vez que estive em Nice foi com a minha mulher em 2013, para um casamento. Eu podia ter sido uma vítima do terrorismo. E muitos de vocês, também. Não interessa a sua religião, a sua nacionalidade, a sua idade ou o seu sexo. O terrorista não perguntou nada disso quando saiu atropelando. Meus sentimentos para as vítimas e para a França.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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