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Por que o Brasil covardemente não reconhece o Genocídio Armênio?

gustavochacra

24 de abril de 2015 | 10h18

Nesta sexta, foi aniversário de 100 anos do Genocídio Armênio. Calcula-se que 1,5 milhão de armênios, incluindo centenas de milhares de crianças, foram massacrados pelas forças otomanas ou morreram de fome depois de serem expulsos pelos otomanos. Estes armênios eram residentes da região da Anatólia, parte do Império Otomano e hoje Turquia.

Sobreviventes foram bem recebidos na Síria e no Líbano, em cidades como Aleppo e Beirute. Alguns, junto a libaneses e sírios, seguiram viagem e imigraram para o Brasil, Estados Unidos, França e Argentina, onde formaram proeminentes comunidades. Os armênios do Império Russo, por sua vez, depois de décadas como parte da União Soviética, hoje tem seu país com capital em Yerevan. O Monte Ararat, símbolo dos armênios, porém, permanece no território turco.

Apesar de ter passado um século, algumas nações, de forma deprimente e vergonhosa, se recusam a reconhecer o formalmente o Genocídio. Começando pela própria Turquia, herdeira do Império Otomano. Ao contrário de nações como a Alemanha, que reconhece ter cometido o Holocausto, o governo turco não aceita discussões e diz que os armênios morreram em decorrência da guerra, embora a história diga claramente terem sido alvos de genocídio.

Como já escrevi aqui várias vezes, os Estados Unidos, embora digam ter havido um massacre, se recusam a chamar de genocídio. Chama a atenção que o então senador e cidadão Barack Obama reconhece o genocídio, mas o presidente Barack Obama covardemente tem medo de falar esta palavra para não deteriorar as relações com a Turquia, integrante da OTAN.

Israel, terra do povo judaico, vítima do Holocausto, o maior genocídio do século 20, deveria ter sido um dos primeiros a reconhecer o genocídio, ainda mais com o histórico quadrilátero armênio em Jerusalém. Muitas entidades judaicas ao redor do mundo reconhecem. Muitos israelenses também. Mas o governo de Israel também tem medo de enfurecer a Turquia, uma tradicional aliada militar, embora hoje com um premiê claramente anti-israelense.

O Brasil também passa vergonha ao não reconhecer. Não apenas Dilma, mas também Lula, Fernando Henrique Cardoso e todos os seus antecessores. A comunidade armênia brasileira deveria ter visto este reconhecimento pelo menos no centenário. Mas também covardemente os presidentes brasileiros têm medo de bater de frente com a Turquia.

A Argentina, França e Líbano são alguns dos países que reconhecem o genocídio sem o medo de enfurecer a Turquia. Também devem ser elogiados o Papa Francisco, o presidente da Alemanha, Joachin Gauck, o Parlamento Sírio e o Estado de São Paulo, que passaram a reconhecer.

São 100 anos. Agora, qualquer reconhecimento será tardio. Ainda assim, obrigatório. Dilma, Obama, Bush, FHC, Lula, Netanyahu e tantos outros não tiveram coragem de reconhecer o Genocídio.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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