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Por que o Campeonato da Síria de futebol não foi interrompido?

gustavochacra

08 Setembro 2015 | 17h34

O Campeonato de Futebol da Síria não foi interrompido pela guerra. Pode parecer surreal, mas o torneio foi realizado normalmente nesta temporada. O atual campeão é o Al Jaish (time do Exército, como o próprio nome indica em árabe). No ano passado, porém, o troféu ficou com o Al Wahda, que é um clube tradicional de Damasco.

As partidas ocorreram quase exclusivamente nas áreas controladas pelo regime, o que inclui as principais cidades do país – Damasco, Hama e Latakia. Aleppo, atualmente dividida, teve como representante o Al Ittihad. Os times foram divididos em dois grupos de nove times. E quatro equipes foram rebaixadas.

A realização do campeonato pode surpreender muitas pessoas. Mas guerras, incluindo as mais violentas como a da Síria, não atingem todos os lugares e tampouco ocorrem o tempo todo. Raqqa, hoje controlada pelo ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh), onde decapitações são comuns, vive uma situação totalmente diferente de Tartus, onde as pessoas aproveitaram a praia no verão Mediterrâneo e podem beber álcool sem serem importunadas.

Uma recente reportagem indicava que, em Aleppo, há áreas da cidade completamente destruídas. Mas jovens cristãos que vivem nos setores controlados pelo regime se arrumam e vão para a balada. Em Damasco, pessoas frequentam cinema e fazem compras no supermercado e nos shoppings, apesar de ouvirem tiros vindos dos subúrbios.

Obviamente, estas imagens, incluindo o campeonato de futebol, mostram apenas que as pessoas tentam sobreviver. O banho de mar em Tartus pode ser de uma mulher que torce para o marido, major do Exército, não morrer em combate. O cristão de Aleppo deve estar desempregado e desesperado para ver se consegue uma forma de escapar da cidade e se juntar ao irmão nos EUA. O casal que sai do cinema pode ter perdido o filho na guerra. E todos vivem em um cenário de incerteza, entre um regime autoritário, de um lado, e grupos ultra radicais como o ISIS e a Al Qaeda, de outro, que podem tomar suas cidades a qualquer momento.

Por este motivo, não podemos julgar os sírios porque eles seguem com o seu Campeonato de futebol. É um direito deles.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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