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Por que o erro do Seattle no Super Bowl ajuda a explicar o mundo?

gustavochacra

02 de fevereiro de 2015 | 15h06

O futebol americano é um jogo que leva em consideração centenas de variáveis estatísticas. Ao contrário do futebol brasileiro ou do basquete, há pouco espaço para improvisação. Todas as jogadas, durante as partidas, são discutidas pelo técnico, pelo coordenador de ataque e pelo quarterback. Eles levam em consideração o momento do jogo, a defesa adversária e quais as alternativas diante das peças (jogadores em campo) disponíveis.

Quase todo o mundo sabe o que ocorreu ontem na final do Super Bowl. Não terei como me aprofundar nas regras. Mas tentarei descrever da maneira mais didática possível.

O Super Bowl é a final do Campeonato dos EUA de futebol americano. É disparado o evento mais assistido do país todos os anos. Os comerciais são os mais caros da TV mundial. Literalmente, o país todo assiste, como o Brasil na Copa.

Na final de ontem, de um lado, estava o Seattle Seahawks, campeão do Super Bowl do ano anterior. Do outro, o New England Patriots, de Boston, que tem como quarterback (basicamente, o principal jogador do time) Tom Brady, vencedor de 3 Super Bowls antes da final e participante de outros dois (agora possui quatro títulos). Sem dúvida, um dos melhores jogadores de todos os tempos – no Brasil, conhecido como o marido da Gisele Bundchen, embora nos EUA, óbvio, ela seja conhecida como a mulher dele.

O jogo teve seus altos e baixos e a pontuação é diferente da do nosso futebol. Posso dizer que o Patriots começou vencendo. O Seattle virou e abriu uma vantagem. O Patriots, no fim do jogo, conseguiu virar de novo. Mas, de uma forma surreal, o Seattle conseguiu a chegar a uma jarda (90 cm) da zona do touch down, que seria o equivalente ao gol do nosso futebol, faltando cerca de um minuto.

Havia 3 tentativas para converter. E, basicamente, duas estratégias.

Na primeira, o quarterback do Seattle, Russell Wilson, entregaria a bola a Marshawn Lynch, o melhor running back do mundo, que com sua força quase sobrenatural tenderia, com uma probabilidade próxima de 100%, a ultrapassar a defesa do Patriots, que, assim como quase todas do esporte, teria enorme dificuldade de segurar este monstro uma jarda. E eram 3 tentativas. Quase impossível imaginar que ele não conseguiria. Sem falar que o risco de ele perder a bola, ainda que bloqueado, era próximo de zero

Na segunda, Wilson, em vez de passar a bola, lançaria para um dos receivers do time. A chance de sucesso não era pequena. Mas a de fracasso trazia um risco bem maior – o de interceptação da bola por um defensor e, na prática, o fim do jogo.

Qualquer pessoa que saiba um mínimo de futebol americano escolheria a opção 1, ainda mais tendo Lynch no time, que equivale a um Cristiano Ronaldo de frente para o gol, depois de driblar o goleiro. Mas agora entra a parte surreal.

Darrell Bevel, coordenador de ataque do Seattle, afirmou que era para usarem a opção 2, deixando a 1 para as duas últimas tentativas. O técnico Pete Carroll, um dos melhores do mundo e munido de todos os números que você possa imaginar, inicialmente queria a opção 1 (entregar a bola para Lynch), mas acatou a decisão de seu coordenador. E o quarterback Wilson aceitou as determinações, embora sempre tivesse a opção de improvisar.

Iniciada a jogada, Wilson fez o que me mandaram – lançou a bola, em vez de entregar para Lynch. O Patriots interceptou e venceu o jogo. Brady confirmou a sua posição como um dos mais vitoriosos quarterbacks da história. Boston fez a festa. E Wilson, um dos heróis da conquista do ano passado, se tornou o vilão.

Mas se, em uma situação fechada e com todos os números a disposição, pessoas ultra competentes como Carroll, Bevel e Wilson tomaram a decisão errada, fico imaginando quantos erros nós não tomamos ou somos vítimas na nossa vida. Confiamos quando um médico recomenda uma cirurgia no joelho em vez da fisioterapia. Aceitamos a recomendação de um investimento de um banqueiro milionário. Acatamos a decisão do nosso advogado em um processo jurídico.

Ao olhar a decisão do Seattle, talvez fiquemos com medo agora de quando algum especialista nos fala algo – especialmente os meteorologistas em Nova York. Como sabemos se acatamos ou não?

Volto ao exemplo do Seattle. Primeiro, os envolvidos (o técnico, seu coordenador de ataque e o quarterback) assumiram o erro. Isso já é um dado muito positivo. Todos disseram ter sido os responsáveis. Em segundo lugar, o histórico. Carroll, ao lado de assistentes como Bevel, levou o Seattle por dois anos seguidos ao Super Bowl, tendo vencido um deles. O treinador também comandou a Universidade do Sul da Califórnia para dois campeonatos nacionais universitários, além de uma marca de 34 vitórias seguidas.

Wilson, por sua vez, se tornou profissional em 2012 da NFL e já esteve em duas finais de Super Bowl. Em uma delas, massacrou o Denver Broncos do quarterback Peyton Manning, um dos maiores jogadores de todos os tempos (para muitos, melhor do que Brady). Há apenas duas semanas, de forma genial, comandou o Seattle para uma virada histórica contra o poderoso Green Bay. E mesmo ontem, apesar do erro no fim, minutos antes de um passe longo que possibilitou seu time chegar perto da vitória.

O erro foi um fenômeno Black Swan. Tanto a decisão dos três, como também a interceptação – embora a opção 1 fosse preferível, a 2 tinha uma probabilidade enorme de ser bem sucedida e quase foi.

Portanto, se você for procurar um médico, um advogado, um investidor, ver uma previsão do tempo ou ler um artigo, veja todo o histórico da pessoa. Apesar do erro de ontem, Carroll, Bevel e Wilson estão entre os melhores em suas atividades e tem no currículo um título de Super Bowl. A competência diminui a probabilidade de erros, mas não elimina

Tom Brady e seu treinador Bill Belichick possuem quatro Super Bowls agora. Hoje são heróis e devem ser tratados assim para sempre porque estão, literalmente, entre os mais vitoriosos da história do futebol americano. Mas, quando perderam duas vezes o Super Bowl, foram massacrados. Sorte do Patriots que os manteve e pôde comemorar mais um título. O Seattle certamente aprendeu a lição. Esporte é assim. A derrota não foi nenhum 7 a 1. Ali, não foi apenas um erro, mas vários.