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Por que o muro de Trump pode ser um erro?

gustavochacra

25 Janeiro 2017 | 20h40

Donald Trump cumpriu mais uma promessa de campanha e anunciou que construirá um muro na fronteira com o México com o objetivo de impedir a entrada de imigrantes ilegais vindos da América Latina e também coibir o tráfico de drogas. Disse ainda que o México terá de reembolsar os EUA pela construção, embora o governo mexicano descarte esta possibilidade (óbvio que os mexicanos não vão pagar).

Saberemos se o muro funcionou depois de este ser erguido. Neste momento, não há problema grave de imigração de mexicanos para os EUA. Ao contrário, houve um movimento no sentido contrário, com mexicanos voltando ao México. Há, no entanto, um fluxo de pessoas da América Central, como Guatemala e El Salvador, em direção aos EUA. E os mexicanos, caso o país volte a entrar em crise econômica, talvez queiram fazer de novo a travessia.

O México já deixou claro que, além de não pagar, é contra a construção, mas considera esta uma questão dos americanos. As ações de Trump, no entanto, podem sair pela culatra. Os mexicanos são fundamentais na luta contra o tráfico de drogas e também agem para impedir que centro-americanos usem seu território para chegar aos EUA. Agora, pode relaxar nas duas vias para dar um golpe em Trump. Vamos ver.

E, nos EUA, todos concordam que as fronteiras devam ser reforçadas. Mas muitos questionam a utilidade de um muro que pode custar mais de US$ 10 bilhões – alguns falam em até US$ 20 bi (dinheiro que poderia ser gasto na saúde e educação). Nas áreas de maior risco, já existe muro ou cerca. Quem já foi a San Diego viu o muro separando de Tijuana, por exemplo. O restante do traçado seria erguido em áreas onde há montanhas, deserto e rio, tornando a construção um desafio logístico e um pouco inútil. Talvez o uso de drones e outros mecanismos mais modernos pudessem ter um efeito melhor. Enfim.

Também questionam se o muro conseguirá impedir a entrada de alguém. Afinal, dá para cavar túneis. Estes certamente serão construídos – basta vez o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza para entender um pouco. Os coiotes cobrarão mais pela travessia de imigrantes. Os traficantes, então, nem se fala – desde que o mundo é mundo eles são criativos na forma de levar drogas de um lado para o outro. E os consumidores americanos seguirão em busca de entorpecentes.

Por último, muitos imigrantes que estão em situação ilegal, incluindo muitos brasileiros, entram nos EUA com visto de turista ou estudante pelo aeroporto e permanecem mais tempo no país. O muro não tem função nenhuma para impedi-los.

Logo, Trump será extremamente cobrado caso o fluxo de imigrantes para os EUA aumente. Claro, talvez seu governo tente apresentar “fatos alternativos” e estes colem com parcela da sociedade. Difícil dizer. Não vivemos mais em um mundo normal.

Notem que não entrei na questão ideológica do muro.

Sobre os 11 milhões de imigrantes sem documentos nos EUA, escreverei outro dia.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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