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Por que o Ocidente não entende que os cristãos do Oriente gostam Assad?

gustavochacra

10 de junho de 2015 | 17h34

Os líderes cristãos do Oriente gostam de Bashar al Assad. Hoje mesmo, em Damasco, estão reunidos os patriarcas cristãos grego-ortodoxo, grego-católico (melquita), siríaco-ortodoxo, siríaco católico e maronita. No ano passado, estes mesmo patriarcas estiveram reunidos em Washington para dizer ao presidente Barack Obama que o líder sírio é a única proteção que eles têm contra o radicalismo islâmico de grupos como a Al Qaeda e o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

No Ocidente, aos poucos, as pessoas começam a entender que, se o regime de Assad acabar, independentemente do que fala a oposição, o cristianismo na Síria estará em risco. O Líbano, basicamente, sobrará como o único bastião dos cristãos no mundo árabe – no Egito, os cristãos sempre foram uma espécie de segunda classe; na Palestina, é um pouco mais complicado.

E por que os cristãos gostam de Assad e por que Assad os defende? Porque Assad é o último líder arabista do Oriente Médio. Arabista é diferente de islâmico. A identidade árabe, por não ser religiosa e sim étnica, sempre facilitou a assimilação de cristãos. Basta ver que o número dois de Saddam Hussein, Tariq Aziz, que morreu nesta semana, era cristão – e o ditador iraquiano, assim como Assad, era arabista.

A Síria se chama República Árabe Síria. É árabe, não necessariamente islâmica, embora o islamismo esteja no caldeirão da identidade árabe. Na Síria, cristãos historicamente sempre puderam exercer sua religião sem problemas.

Quando alguns menos informados dizem que cristãos não podem ter igrejas em países de maioria islâmica, talvez não saibam que Damasco é a cidade do mundo com o maior número de Patriarcados – Três (Ortodoxo de Damasco, Melquita e Síriaco-Ortodoxo). Na capital síria, viveram 12 apóstolos, incluindo São Paulo, que dá nome à maior cidade do Brasil.

Antes de terminar, noto que a Síria tem cristãos que não são árabes, como os assírios e os armênios, embora estes também sempre tenham sido protegidos pelo regime.

Isso não isenta, de forma alguma, Assad de crimes contra a humanidade, segundo a ONU (e tampouco o isenta de crimes cometidos durante a ocupação do Líbano). Significa apenas que os cristãos se sentem mais seguros com o atual regime, independentemente do que a máquina de propaganda da Arábia Saudita diga no exterior. Os sauditas, afinal, patrocinam milícias ligadas à Al Qaeda no Jeysh al Fatah, e possuem um regime de Apartheid contra mulheres e outras religiões, como a cristã.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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