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Por que o terrorismo do ISIS ainda não superou o da Al Qaeda no auge?

gustavochacra

04 Julho 2016 | 13h42

O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, ainda não atingiu a sofisticação da Al Qaeda durante o auge da organização de Bin Laden em suas ações terroristas. Mas está clara a evolução do terrorismo do grupo, como observamos apenas na última semana em Istambul, Dhaka (Bangladesh) e Bagdá, mesmo tendo perdido cerca de 40% território no Iraque e na Síria – e isso aumento a quantidade de atentados como forma de propaganda. Para completar, o risco dos lobos solitários torna este grupo ainda mais imprevisível.

Istambul

Cada um destes ataques recentes teve características um pouco diferentes dos demais. Em Istambul, o alvo foi um moderno aeroporto considerado um dos mais seguros do mundo. Os terroristas eram de ex-repúblicas soviéticas e usaram armas e bombas atreladas aos seus corpos. O alvo foi indiscriminado, com turistas e turcos entre as vítimas. O objetivo foi provocar o caos na Turquia e provocar o governo de Recep Tayyp Erdogan, que passou a integrar a coalizão para combater o ISIS.

Bangladesh

Em Dhaka, como na França e na Bélgica, questões domésticas pesaram na ação. Os terroristas integram a elite bengali. Estudaram em escolas bilíngues em alguns casos e se radicalizaram nos últimos meses. Neste sentido, são bem diferentes dos terroristas de Paris e Bruxelas, que vieram de camadas mais pobres e tinha antecedentes criminais. Os alvos em Bangladesh foram claramente os expatriados.

Bagdá

No caso de Bagdá, está dentro do contexto de um conflito civil interno no país. As forças iraquianas, majoritariamente xiitas, estão na vanguarda da luta contra o ISIS e contam com o apoio dos EUA e do Irã. No mês passado, conquistaram mais uma vitória importante ao recuperaram Fallujah, uma cidade de maioria sunita nas mãos do ISIS. Para se vingar, o grupo atacou a capital iraquiana, que é o seu maior alvo no mundo.

Três formas de atentado do ISIS

Diante destes ataques, e mais o de Orlando e o do Vale do Beqaa (Líbano), dá para dizer que existe três formas de atentados do ISIS. Primeiro, os organizados diretamente pelo coração da organização, como o de Istambul e Bagdá. Em segundo lugar, os realizados por células domésticas em países distantes da Síria e do Iraque, como vimos em Bruxelas, Dhaka e Paris. Por último, os de lobos solitários inspirados pelo ISIS, como em San Bernardino e Orlando.

O risco de lobos solitários

Síria, Turquia, Iraque, Líbano e Egito são ameaçados pelo primeiro grupo, dos organizados pelo coração do ISIS. A Europa como um todo sofre um risco maior de atentados de células avançadas, ainda que sem envolvimento direto das lideranças em Raqaa. Os EUA, e mesmo o Brasil (especialmente durante a Olimpíada), sofrem um risco maior de lobos solitários.

Al Qaeda

A Al Qaeda usava apenas o primeiro grupo, de ataques organizados pela rede terrorista, como o 11 de Setembro, Madrid e Londres. Estes eram incomparavelmente mais sofisticados do que os do ISIS. A rede de Bin Laden também conseguia organizar mega-atentados no coração do Ocidente. Algumas vezes também usou células avançadas, como em Bali. Mas raramente vimos ataques inspirados pela Al Qaeda. Neste sentido, o ISIS é mais perigoso. Afinal, ações tradicionais de contraterrorismo possuem menor chance de sucesso.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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