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Por que, se o Brasil fosse a Síria, o ISIS controlaria Manaus?

gustavochacra

05 de agosto de 2015 | 10h57

Um mapa pode enganar bastante. Quando observamos o mapa territorial da Síria e as áreas controladas pelo regime de Bashar al Assad, parece que este controla cada vez menos os sírios. Mas, se prestarmos mais atenção, veremos que o líder sírio tem o comando ainda dos principais centros populacionais e das regiões mais estratégicas do país. Além disso, grande parte das áreas supostamente nas mãos dos rebeldes (sejam eles da Al Qaeda ou do ISIS) é deserto.

Comparem com a Colômbia nos anos 1990. Na época, o governo controlava as principais cidades. Algumas outras estavam nas mãos de cartéis, como Cali e Medelin. Por último, organizações como as FARC e o ELN tinham nas mãos enormes áreas rurais do país. Isto é, na prática, o governo de Bogotá tinha um controle inferior ao do regime de Damasco na guerra civil colombiana (hoje aumentou bastante as áreas nas mãos do governo).

O Iraque também serve como exemplo. Muito se fala da perda de controle territorial na Síria e pouco no do Iraque. Mas Assad ainda tem nas mãos todas as cidades mais populosas (Damasco, Homs, Hama, Latakia, Tartus), embora não domine totalmente Aleppo – ainda comanda as áreas mais ricas e maiores desta metrópole que é centro econômico sírio. Já o governo em Bagdá, além de não apitar mais no Curdistão, perdeu a segunda maior cidade iraquiana, Mossul, para o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e também de outras cidades importantes. Na Síria, o ISIS domina apenas uma capital de Província – Raqaa, que estrategicamente tem pouca importância. O avanço do ISIS, portanto, é maior no Iraque do que na Síria.

O importante, para Assad, neste momento, é manter o controle da costa mediterrânea, do corredor que leva do litoral até Damasco (Homs e Hama), de toda a fronteira com o Líbano e da estrada que leva da capital síria até a Jordânia, incluindo Daara. Destas, apenas a quarta corre risco neste momento e houve interrupções recentes.

O regime sobreviveria sem Aleppo, mas a perda desta metrópole seria grave por dois motivos. Primeiro, simbolicamente, não existe Síria sem Aleppo. Em segundo lugar, Aleppo poderia servir de base para as forças da oposição criarem uma capital paralela, na qual possam reivindicar como a “verdadeira Síria”, no estilo Benghasi para a Líbia em 2011.

De qualquer maneira, sempre olhem com cautela os mapas. Se a Síria fosse o Brasil, hoje Assad teria o controle do Sul, Sudeste e da maior parte do Nordeste. Grupos rebeldes teriam o Centro-Oeste e o ISIS teria nas mãos a Amazônia. Raqaa seria Manaus.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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