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Por que tanta empolgação com o ditador da Arábia Saudita?

gustavochacra

05 Abril 2018 | 12h32

O ditador de facto da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, não foi o primeiro líder de seu país a reconhecer Israel. Na verdade, em 2002, a Arábia Saudita, assim como todas as nações árabes em reunião da Liga Árabe em Beirute, disseram que reconheceriam Israel e estabeleceriam relações diplomáticas caso os israelenses voltassem para as fronteiras de 1967. Sete anos mais tarde, após a Guerra de Gaza, os sauditas publicaram a seguinte oferta em jornais israelenses (escrevi aqui na época)

  1. Israel deve se retirar de todos os territórios ocupados em 1967, incluindo a Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas do Golã (o plano não mencionava as Fazendas de Shebaa)
    2. Deve ser estabelecido um Estado palestino
    3. A questão dos refugiados seria resolvida em negociações de acordo com a resolução 194 da ONU
    4. Em troca, TODOS os países árabes reconheceriam Israel e o seu direito de viver em fronteiras seguras
    5. TODOS os países árabes assinariam um acordo de paz e estabeleceriam relações diplomáticas com israelenses

Na verdade, a Arábia Saudita historicamente nunca adotou um tom muito forte contra Israel. As nações árabes, até o fim dos anos 1970, que estiveram na vanguarda contra os israelenses eram o Egito, Jordânia e Síria. Nas últimas décadas, após os acordos de paz assinados por egípcios e jordanianos com os israelenses, o Irã, que não é árabe, e o Hamas e o Hezbollah passaram a ser os líderes da frente anti-Israel. Acrescentaria, nos últimos anos, a Turquia de Erdogan, que tampouco é árabe.

Os sauditas sempre tiveram interesse em boas relações com os israelenses até porque compartilham de interesses geopolíticos como no caso da contenção do Irã. Também são aliados americanos e possuem um intercâmbio no campo militar extraoficial, segundo relatos. Para completar, a Arábia Saudita não possui disputa territorial com Israel.

Por que então tanta excitação no Ocidente com a declaração do atual ditador da Arábia Saudita? Fácil explicar. MBS, que é conhecido o atual líder do regime saudita, lançou uma ampla e bem sucedida campanha de propaganda para se vender como moderado e reformista, diferentemente de seus antecessores no que era antes um regime de clãs e não autocrático, como agora. Sem dúvida, ele até tem feito alguns avanços que podem tornar a Arábia Saudita um pouco menos fechada, talvez nos padrões da ditadura vizinha dos Emirados Árabes, mas bem distante de nações árabes mais livres como o Líbano e também aquém do persa Irã.

Já no campo geopolítico, Bin Salman é inconsequente. Comete crimes contra a humanidade na sua guerra no Yemen, sequestrou o premiê do Líbano e tentou alimentar, sem sucesso, um conflito de sunitas contra xiitas no Líbano, fez um boicote bizarro ao Qatar e arma grupos jihadistas ultra extremistas na Síria. De positivo, só a manutenção da já existente aproximação com Israel que aparentemente incentiva a paz com os palestinos.

Bin Salman, apesar do título de príncipe, é apenas mais um ditador (ou “monarca absolutista”, como queira). De líderes democráticos no mundo árabe, apenas os do Líbano, Tunísia e Iraque.

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