As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que Trump errará se abandonar acordo nuclear com o Irã?

gustavochacra

05 Outubro 2017 | 16h18

Batendo de frente com o seu secretário da Defesa, seu secretário de Estado, a CIA, seu assessor de segurança nacional, seu chief of staff, a Agência Internacional de Energia Atômica e todos seus aliados na Europa, além da Rússia e da China, Donald Trump indicou que deve iniciar um processo de retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã.

A informação foi publicada pelo Washington Post, citando fontes da Casa Branca. Trump deve dizer ao Congresso no dia 15 que o Irã não está cumprindo a sua parte no acordo nuclear, apesar de as agências de inteligência dos EUA, da Europa, da China, da Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica dizerem o contrário – afirmam que o regime de Teerã está cumprindo o acordo negociado pelos EUA e outras cinco potências (China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha).

A decisão de Trump, se confirmada, será um grave erro, conforme o próprio secretário da Defesa, General James Mattis, disse ao Senado nesta semana. Como afirma o chefe do Pentágono, é melhor ter um Irã não nuclear como inimigo do que um Irã com armas atômicas. Esta visão é compartilhada por todo o alto escalão do governo Trump e por todo o establishment em Washington. A posição do presidente é individual e alguns dizem que ele não quer ficar no acordo porque este foi negociado por Obama.

Caso os EUA abandonem o acordo, este continuará valendo para o restante da comunidade internacional. Haverá, portanto, dois resultados graves para os americanos. Primeiro, o país ficará isolado internacionalmente nesta questão. Pequim, Moscou, Paris, Londres e Berlim deixam claro que não têm a intenção de abandonar o acordo com o Irã ou negociar um novo. Em segundo lugar, a palavra dos EUA perderá força. Afinal, em futuras negociações como com a Coreia do Norte ou mesmo com a Rússia, o outro lado dirá que é difícil assinar um acordo com um governo americano porque este poderá ser rasgado quando um outro presidente ocupar a Casa Branca.

O Irã realmente possui um regime distante de ser democrático. Mas a Arábia Saudita, aliada americana, ainda é menos democrática. O mesmo vale para o Egito, outro aliado americano na região. O regime de Teerã de fato faz ameaças a países vizinhos. Mas, como afirmam todos, seguirá fazendo estas ameaças sem o acordo com a diferença de que poderá rapidamente ter bombas atômicas. Por último, o Irã tem sido fundamental no combate ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

Resta torcer para que Trump escute seu gabinete de segurança nacional e não retire os EUA do acordo. Quem está comemorando certamente a postura do presidente é linha dura do regime iraniano, que sempre discordou do acordo negociado pelo presidente Rouhani. Deve ter festa na Guardas Revolucionárias celebrando o “aliado” deles em Washington.