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Posso estar errado, mas acho que não haverá guerra Israel-Hezbollah

gustavochacra

19 de dezembro de 2014 | 16h29

O Hezbollah e Israel são inimigos e devem seguir com um conflito de baixa intensidade nos próximos meses, de acordo com as regras do jogo em vigência desde o cessar-fogo de 2006. Apenas um erro de cálculo de um dos lados pode levar a um conflito generalizado. Neste caso, o Líbano será destruído e Israel verá suas principais cidades sendo atingidas por mísseis. Mas, com enorme cautela, não acredito que isso vá ocorrer no curto e médio prazo pelos seguintes motivos.

1. um conflito entre Israel e Hezbollah seria pior para os dois. Os israelenses não querem que prédios em Tel Aviv e Haifa sejam bombardeados, possivelmente soldados e mesmo civis sequestrados e centenas morram. E oHezbollah não quer ver o Líbano destruído, especialmente as áreas ao sul do Litani, no norte do Vale do Beqaa e nos subúrbios ao sul de Beirute, que são as áreas controladas pelo grupo.

2. o Hezbollah está em gigantesca guerra na Síria, incomparavelmente mais importante, para a organização, do que o conflito contra Israel. Seus maiores inimigos hoje são os rebeldes sírios, não os israelenses. O grupo não tem condições de lutar em duas frentes.

3. o Hezbollah também enfrenta o risco de uma nova frente de combate dentro do Líbano, onde grupos sunitas inimigos da organização xiita têm ganho força. Sem falar em recentes ações de grupos adversários do Hezbollah na Síria, como a Frente Nusrah, e na presença de 1 milhão de refugiados sírios, majoritariamente sunitas.

4. o Hezbollah, conforme expliquei na semana passada, integra uma coalizão junto com importantes facções cristãs e outros grupos. A política doméstica interfere nas decisões do grupo, que não quer bater de frente com seus aliados internamente – lembrem-se, o Hezbollah é libanês e seus membros moram no Líbano dentro do mosaico religioso do país.

5. o Irã não tem interesse em um conflito pelo menos até o encerramento das negociações envolvendo seu programa nuclear com os EUA e outros países. A prioridade do regime de Teerã é um acordo com os americanos. Além disso, o país tem uma preocupação muito maior em combater o ISIS (Grupo Estado Islâmico) e a Al Qaeda, defendendo seus aliados em Damasco e Bagdá, do que em criar um novo conflito contra Israel neste momento.

6. o Hezbollah age em coordenação com o Exército libanês para evitar o avanço de grupos rebeldes sírios no Líbano. Um confronto contra Israel não é do interesse das Forças Armadas libanesas, que recebem apoio militar americano. Certamente, uma provocação do Hezbollah a Israel seria uma afronta à soberania no Exército libanês neste momento.

Prova de que não há interesse em uma guerra neste momento é a forma como oHezbollah reagiu ao bombardeio israelense contra uma área próxima a Damasco, supostamente alvejando armamentos que o regime de Assad estaria transferindo de Teerã para o grupo. Sempre as ações, tanto israelenses quando do grupo libanês, serão proporcionais ao ataque anterior. Nenhum dos lados buscará uma escalada.

Se aplicarmos teoria dos jogos, o Hezbollah e Israel tem mais benefícios, no curto e médio prazo, com o atual status quo do que com uma guerra. Mas estamos falando de Oriente Médio, onde nem sempre tudo tem lógica.

Por este motivo, mantenho a cautela. Afinal, em 2006, houve um erro de cálculo do Hezbollah. O grupo não imaginava qual seria a resposta israelense ao sequestro e assassinato dos soldados israelenses. No fim, os dois lados saíram perdedores no conflito (em parte porque a estratégia militar israelense teve falhas), ainda que o grupo libanês tenha tentado vender como uma vitória (não sei como pode ter vencido com a destruição que vi no Líbano). Israel, de um lado, viu que é vulnerável a ataques do grupo libanês. E o Hezbollah teve de gastar centenas de milhões em reconstrução no Líbano, sem falar em centenas de membros do grupo que morreram nos combates. Seu líder, xeque Hassan Nasrallah, vive escondido até hoje, oito anos depois da guerra.

 Texto originalmente publicado na Rua Judaica
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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