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Primavera Árabe é sinônimo de fim de ditaduras seculares, não de democracia

gustavochacra

18 de dezembro de 2012 | 14h23

Até dois anos atrás, todos que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio se perguntavam os motivos de os países árabes, com a exceção do Líbano e do Iraque, serem ditaduras. Este último, apenas havia deixado de ser depois de intervenção americana em 2003 para derrubar Saddam Hussein.

Os argumentos, isoladamente, não davam para justificar a existência destes regimes. Ter petróleo, sem dúvida, contribui para um regime ser mais autoritário. Afinal, a necessidade de taxar os habitantes é menor e a possibilidade de subsidiar a população para mantê-la calada, maior.

Mas a Noruega tem petróleo e talvez seja a mais consolidada democracia do mundo. Além disso, Jordânia, Síria e Egito, mesmo pobres em petróleo, possuíam e possuem, nos dois primeiros casos, ditaduras.

O islamismo tampouco serve como justificativa. A Turquia, a Indonésia, Bangladesh e outros países são democráticos e majoritariamente muçulmanos. O caráter árabe perdia valor porque o Líbano é árabe e democrático, ainda que sectário.

No fim, quando um jovem se imolou na Tunísia, um efeito cascata se iniciou, culminando na queda de Ben Ali. Ele foi o primeiro ditador a cair e os tunisianos, embora enfrentando muitos obstáculos, rumam para se tornar uma democracia ainda mais forte do que a libanesa.

Hoje, sem Kadafi, Mubarak e Saleh, os árabes demonstraram que não toleram ditadores. Ao mesmo tempo, estes países ainda não se tornaram democracias, a não ser pela Tunísia. Estão todos em transição. Não sabemos para onde. Mas lembro que, no Leste Europeu e na América Latina, não foi diferente.

O Brasil não aprovou as Diretas Já, os argentinos enfrentaram os levantes dos cara-pintadas, o ex-ditador Pinochet comandou as Forças Armadas do Chile por mais uma dácada e El Salvador, Guatemala e Nicarágua tiveram guerras civis tão sangrentas quanto a da Síria. Hoje, todas estas nações são democráticas, mesmo que não tão avançadas quanto a Noruega e com reveses como na Argentina de Cristina Kirchner.

Apenas daqui dez anos dará para se ter uma ideia do que representou a Primavera Árabe.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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