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Protestos no Egito – Acompanhe em tempo real (terça-feira)

gustavochacra

01 de fevereiro de 2011 | 05h30

Acompanhe em tempo real o quarto dia de manifestações no Egito contra o regime de Hosni Mubarak. No twitter, @gugachacra

O DITADOR DO MAIOR PAÍS ÁRABE FAZ DISCURSO DA DERROTA. UM DIA PARA A HISTÓRIA NO CAIRO, QUE CONSOLIDA A PRIMAVERA DA LIBERTAÇÃO DOS ÁRABES, QUE COMEÇOU NA TUNÍSIA. MUBARAK DIZ QUE SAIRÁ EM SETEMBRO, MAS DEVE CAIR NOS PRÓXIMOS DIAS OU MESMO HORAS

Em um discurso histórico, que simbolizará para sempre a derrota dos ditadores do mundo árabe, Hosni Mubarak afirmou que deixará o poder em setembro depois de eleições democráticas. Mas os milhões nas ruas do Cairo, de Alexandria, de Suez querem mais. Querem a queda imediata deste faraó dos tempos modernos que tentava se eternizar como uma múmia no Museu Egípcio na Praça Midan al Tahrir.

A Tunísia começou a revolução que agora se solidifica no Egito. A primavera árabe. As ditaduras no Oriente Médio não serão eternas, como não foram na América Latina. Caiu em Buenos Aires, depois em Brasília, Assunção e Santiago. Como tampouco foram no Leste Europeu. Caíram em Praga, em Bucareste, Varsóvia e em Moscou. Caíram na África e na Ásia. E agora começam a ser derrubadas em Tunis e no Cairo. Amã, Damasco, Argel e Trípoli estão na lista.

O caminho será longo. Nada garante que mesmo o Egito e a Tunísia sejam democráticos. O xá caiu no Irã, que é persa, não árabe, há mais de 30 anos e instalaram um regime odioso e tão repressor como antecessor. O mundo não pode permitir que egípcios e tunisianos tenham o mesmo destino.

Rei Abdullah da Jordânia, Rei Abdullah da Arábia Saudita, Bashar al Assad na Síria, Bouteflika na Argélia e Khaddafi na Líbia estão atentos. Desta vez, não será como no Iraque de Saddam, com a força das armas. Será com a força do povo árabe, nas ruas, que prova não ser verdadeira a teoria de que apenas ditaduras republicanos, monarquias absolutistas e a democracia sectária libanesa podem sobreviver. Os árabes podem viver em democracia sim.


17h30 – A estratégia para a saída de Mubarak – Hosni Mubarak deve anunciar ainda nesta noite que não concorrerá mais uma vez à Presidência nas eleições de setembro, segundo a CNN e a Al Jazeera. Seu filho, Gamal, ficaria de fora. Talvez o presidente tenha que deixar o cargo nos próximos dias. Não importa muito, seu poder acabou. A tendência é de o novo vice-presidente e chefe da inteligência, Omar Suleiman, e do novo premiê, Ahmed Shafiq, liderarem uma transição. O objetivo será manter a segurança e a política externa nas mãos dos militares. A política doméstica ficaria com os civis. Igual à Turquia pós-ditadura nos anos 1980 e 90. A Irmandade Muçulmana poderia ter candidatos desde que abdicasse de sua agenda islâmica. Esta é a estratégia dos EUA (o próprio Obama disse a Mubarak, segundo o NY Times), da cúpula militar egípcia e de seus aliados. O Nobel da Paz e líder da oposição, Mohammad El Baradei, teria concordado. Falta saber da Irmandade e da população. Além claro, do próprio Mubarak

16h30 – A decadência do centro Cairo e onde vive a elite – A praça Tahrir, no centro do Cairo, enfrenta uma decadência nos últimos anos. A Universidade Americana, que dava ares estudantis para a área, se mudou para o subúrbio. O Museu Egípcio deve ser removido em breve para a estrada Cairo-Alexandria. Aliás, como já vem fazendo grande parte da elite do Cairo. Os bairros da moda são Maadi e Heliópolis, a quilômetros do lugar onde ocorre a mega manifestação de hoje. Zemalak, uma espécie de Jardins da capital egípcia, é uma das poucas áreas que ainda não se deteriorou no centro. Há bons restaurantes, lojas sofisticadas e cafés, como na Recoleta de Buenos Aires ou em Polanco, na Cidade do México.

Os clubes esportivos de Zemalek ainda reúnem a elite do Cairo para partidas de squash e competições de natação. O squash, por sinal, é o esporte nacional e o Mubarak, mesmo na faixa dos 80, ainda joga. Os melhores desta modalidade no mundo são egípcios. Outra área sofisticada do centro, chamada Garden City, decaiu. Apesar da Embaixada dos EUA, não é mais um local priorizado pela classe média alta egípcia. Com suas ruas tortuosas, foi construída pela Companhia City de Londres, da mesma forma que o Jardim Europa e o América em São Paulo. Segundo a diplomata Helena Gasparian, a City também ergueu o bairro da eleite de Cabul.

15h – O Efeito Egito na Síria – Opositores na Síria querem organizar um protesto para este sábado. Mas, na minha avaliação, o regime de Bashar al Assad corre menos risco do que os demais na região. A classe média síria preza muito a estabilidade síria quando comparada aos vizinhos Iraque e Líbano. Há dois milhões de refugiados iraquianos vivendo na Síria que contam horrores do processo de redemocratização em Bagdá. Os sírios também observaram os libaneses, sem um regime forte, travarem uma guerra civil por 15 anos. Os problemas econômicos, que foram o vetor do levante tunisiano, afetam menos Assad que, como Fidel Castro, pode culpar o embargo americano. A ocupação israelense das colinas do Golã ajuda a unificar o país.

No início de seu mandato, em 2000, Assad tentou realizar reformas políticas e modernizou a economia. Opositores podiam se reunir e criticar o governo no que ficou conhecido como primavera de Damasco. Mas ele voltou atrás nas reformas por pressão da velha guarda do Baath. Com a Revolução dos Cedros no Líbano e a invasão americana do Iraque, Assad se fechou completamente, restringindo totalmente os valores democráticos. Mas é aberto a conversas. No ano passado, o entrevistei e pude perguntar o que quisesse. Ontem, saiu uma entrevista no Wall Street Journal. Ele se parece um jogador de basquete do clube Sírio.

14h20 – Breaking News – O Departamento de Estado dos EUA adiou e estuda até mesmo cancelar o briefing diário de hoje sobre política externa. Isso nunca ocorreu aqui nos EUA, pelo menos nos últimos anos. E circula um boato de que Hosni Mubarak teria partido em direção ao Bahrein. Não é a primeira vez que rumores neste sentido circulam. Mas a decisão do governo americano chama a atenção

14h – A decadente economia do Egito – Independentemente do que acontecer politicamente nos próximos dias, o Egito enfrentará uma dura crise econômica nos próximos meses. Com uma população empobrecida, uma sociedade desigual e desemprego recorde entre os jovens, o país ainda observará redução nos investimentos estrangeiros e a queda drástica no turismo. Os turistas são tão importantes para os egípcios que, como na Grécia, eles adotam nomes diferentes para o país. Em árabe, Egito é Misr. Mas o nome histórico (Egito, Egypt, Egypto), dos tempos das pirâmide e dos faraós, é mantido no resto do planeta como estratégia de marketing.

13h10 – Por que há ditaduras no mundo árabe? – Existem três teorias equivocadas para explicar as ditaduras no mundo árabe. A primeira seria o islamismo. Mas esta facilmente pode ser descartada. A Turquia, ali ao lado, é muçulmana e democrática. Além disso, existem ditaduras em países não islâmicos, como Cuba e Coréia do Norte. Além disso, o Egito, Síria e Tunísia de Ben Ali eram ou são ditaduras seculares que combatem os religiosos muçulmanos. O apoio americano tampouco explica as ditaduras. O Egito e a Jordânia podem ser aliados, mas a Síria sofre sanções americanas. Por último, diriam ser o petróleo. Com a renda, os regimes de países produtores não precisam cobrar tantos impostos e a população não teria como reivindicar. Porém, mais uma vez, esta teoria não se aplica a países como o Egito e a Jordânia, que não são produtores. As ditaduras da região se diferem e tem causas distintas.

12h08 – Jordânia teme ser próxima lista – O rei jordaniano Abdullah anunciou a demissão de todo o seu gabinete ministerial. A medida visa impedir que a Jordânia seja a próxima da lista de levantes contra o regime, depois da Tunísia e do Egito. Protestos já começaram. Apesar de monarquia, a Jordânia se parece muito às ditaduras republicanas do mundo árabe. O rei, popular no Ocidente por sua mulher bonita, seus ternos e suas motos, é um autocrata que reprime a oposição e restringe as liberdades democráticas. Sua família tampouco é original daquela região. Seus antepassados eram da Arábia Saudita e receberam de presente dois países criados artificialmente pela Inglaterra – a Jordânia e o Iraque. O território jordaniano era habitado por beduínos e tribos. Amã não tinha importância no passado, como Damasco ou Bagdá. Os refugiados palestinos ou seus descendentes que viviam no que hoje é Israel e Cisjordânia compõem importante parcela da população. Daqui a pouco, falarei da Síria

9h15 – “Protestar, Rezar e Amar” – Egípcios pararam para rezar durante os protestos na praça Tahrir, no Cairo. Em seguida, voltaram a protestar de forma pacífica. Há cerca de 100 mil pessoas na praça Tahrir e sem problemas de violência por enquanto

8h45 – “Fora Mubarak” e “O Exército e o povo são uma coisa só”Estes são os dois principais gritos entoados pelos manifestantes no Cairo, Alexandria e outras cidades do Egito. Na praça Midan al Tahrir, onde ocorre o maior protesto, os organizadores pedem identificação a todas as pessoas e as inspecionam para verificar se não há armas. Eles querem garantir que o ato seja pacífico

7h40 – EUA deveriam abandonar Mubarak – Análise dos institutos Brookings e Carnegie “Caso Obama distancie os EUA de Mubarak, pode haver um tsunami de instabilidade que afetaria todos pilares de todas das alianças com outras autocracias árabes na região. Caso ele não se distancie do faraó egípcio, o presidente pode alienar a população egípcia, abrindo caminho para um regime teocrático fundamentalmente anti-americano”, escreveu em análise Martin Indyk, ex-embaixador dos EUA em Israel e hoje no Brookings Institute.

Assim como outros formuladores de política externa, ele tenta encontrar alternativas para Washington conseguir sair deste impasse envolvendo o Egito. Segundo Indik, Obama deve pedir ao novo vice-presidente e chefe da inteligência, Omar Suleiman, “para assumir a presidência, controlar os manifestantes e convocar eleições”.

Marina Ottaway, do Carnegie Endowment for International Peace, também foi direta ao pedir em artigo que Obama abandone o regime. “Os interesses americanos no longo prazo teriam mais benefícios se Obama apoiasse o processo democrático”, afirmou.

5h30 – A luta pelo apoio do Exército – Análise baseada em relatórios de consultorias de risco político como a Eurasia e a Stratfor Com a mega marcha de “1 milhão” marcada para hoje e a internet bloqueada, o Exército segue como o árbitro da situação no Egito. Por enquanto, mantém a aliança com Mubarak ao mesmo tempo que desfruta de respeito da população. O objetivo dos opositores é conseguir convencer os militares a mudar de lado. Para alcançar esta meta, a oposição precisa mostrar que tem capacidade de seguir unida e de manter a intensidade dos protestos sem permitir que o cenário se deterioree para o caos. Mubarak já mostrou ser mais resistente do que Ben Ali e aposta na redução das manifestações dos próximos dias. Sua chance de permanecer no poder depois de setembro, quando haverá eleição, é quase nula. Muitos prevêem que ele seja deposto nos próximos dias e Omar Suleiman lidere a transição.