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Protestos no Egito – Blog acompanha em tempo real (quarto dia)

gustavochacra

31 de janeiro de 2011 | 02h40

Acompanhe em tempo real o quarto dia de manifestações no Egito contra o regime de Hosni Mubarak. No twitter, @gugachacra

19h30 – A Irmandade Muçulmana não é o Hamas – Principal organização opositora do Egito, a Irmandade Muçulmana estaria hoje mais perto politicamente do partido AKP, na Turquia, do que do Hamas, que surgiu inspirado pelo próprio grupo. O professor Fawaz Gerges, da London School of Economics, disse agora na CNN que a Irmandade amadureceu muito nos últimos anos. Abdicou da violência há algum tempo e não tem levado adiante atentados terroristas. Inclusive, aceitaram a posição de Mohammad El Baradei como líder da oposição. O problema é que a organização tem uma série de divisões e poderia prevalecer alas mais radicais em um momento de instabilidade. A cautela é a melhor tática diante da Irmandade. Mas marginalizá-los como o Hamas seria um erro

16h45 – Exército versus a Força Aérea no Egito – O Exército acabou de anunciar no Egito que não irá coibir a marcha de 1 milhão amanhã no Cairo. Já a Força Aérea diz estar 100% com Hosni Mubarak. O presidente do Egito foi brigadeiro e comandou as Forças Armadas antes de assumir o poder depois da morte de Anwar Sadat. Seu novo premiê, Ahmad Shafiq, tem o mesmo posto

16h – As diferenças do Egito e do Iraque – O Egito não pode ser comparado ao Iraque, eliminado o risco de uma guerra civil nos mesmos moldes, mas não com um formato distinto. Apesar da minoria cristã copta, estimada em cerca de 10% e das perseguições recentes, o país não se divide em linhas sectárias.  Até porque Hosni Mubarak, um sunita, persegue a Irmandade Muçulmana, também sunita. Não há xiitas no Egito. Todos muçulmanos (cerca de 90%) são sunitas. Comunidades judaicas no Cairo e Alexandria foram expulsas ou emigraram devido à tensão quando Nasser assumiu o poder. A totalidade da população egípcia é árabe. No Iraque, existe a divisão entre árabes xiitas, árabes sunitas e curdos sunitas. Saddam Hussein, um secular de origem árabe sunita, perseguia os árabes xiitas e os curdos sunitas. Quando derrubado, viu os membros de sua facção serem perseguidos. Para completar, no Iraque, existe a ocupação militar dos EUA e seus aliados. O Irã, a Síria e a Arábia Saudita também se envolvem no país.

15h20 – Países Árabes e a Economia – Os regimes árabes não sofrem apenas o risco de ter o mesmo destino do tunisiano, que já caiu, e do egípcio, que tenta se equilibrar na beira do abismo. Estas nações também correm o risco de crises financeiras. Investidores estrangeiros temem que cenários similares ocorram na Síria, Argélia, Iêmen e Líbia. Os quatro são repúblicas autoritárias, como o Egito e a Tunísia. A Jordânia, mesmo tendo rei, deve ser encaixada neste mesmo perfil. As outras monarquias correm menos risco, especialmente em países menores como o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Nestes lugares, a população nativa representa menos de um quarto do total e uma crise regional poderia elevar o preço do petróleo, que os favoreceria (a Líbia também tem esta vantagem). O Bahrein é  um caso à parte. Ganha com o petróleo. Mas, politicamente, não descartem o retorno de levantes da maioria xiita contra a monarquia sunita.

13h45 – Israel e o apoio a Mubarak – Israel permitiu a entrada de tropas do Egito na Península do Sinai pela primeira vez desde os acordos de Camp David, há mais de três décadas. Segundo o pacto entre os dois países, a zona deveria ser desmilitarizada em troca da devolução da região para o controle egípcio. Mas os israelenses acham que, neste momento, os militares do Egito são fundamentais para manter a estabilidade no Sinai, que tem fronteira com Israel e a Faixa de Gaza. O governo israelense também tem pressionado os EUA a não criticar Hosni Mubarak, segundo diário Haaretz, de Tel Aviv. Os israelenses temem que um novo governo no Egito não respeite os tratados de paz entre os dois país que são fundamentais para a segurança de Israel

13h26 – Marcha de 1 milhão amanhã – Os egípcios prometem uma marcha de um milhão amanhã. Todos sabem que, se as manifestações perderem intensidade, será mais complicado Hosni Mubarak deixar o poder. A oposição também se organizou e decidiu colocar Mohammad El Baradei com líder. É uma estratégia de relações públicas que visa atrair ainda mais a simpatia internacional, ao escolher um Nobel da Paz, e reduzir os rumores de que a Irmandade Muçulmana assumiria o poder. A organização islâmica apoiou El Baradei.

12h10 – Síria promete reformas ao WSJ – O líder sírio, Bashar al Assad, afirmou em entrevista ao Wall Street Journal que pretende realizar reformas no seu país, incluindo a realização de eleições municipais. Por não ter apoio dos EUA e manter o confronto com Israel, ele diz estar em melhores condições do que seus vizinhos. “É muito tarde para quem não viu a necessidade de reformas antes do Egito e da Tunísia”, disse Assad, que está no poder há dez anos – seu pai ficou três décadas. O líder sírio tentou implementar uma abertura política quando assumiu o poder, mas foi bloqueado pela velha guarda do Baath

11h10 – Comentário Twiiter e Facebook no Egito – O Egito mantém o bloqueio ao Twitter e ao Facebook. Mesmo assim, as manifestações prosseguem. O motivo é óbvio. Sempre ocorreram protestos e revoluções na história da humanidade, bem antes da invenção das redes sociais. Apenas para usar dois exemplos do Oriente Médio, mais de um milhão de libaneses (um quarto da população) foram às ruas de Beirute em 2005 para pedir a saída da Síria na Revolução dos Cedros. Na época, não existia Twitter e o Facebook era restrito a universidades americanas. A Revolução Islâmica do Irã, de 1979, também é bem anterior às redes sociais. Fitas cassete com discursos do aiatolá Khomeini eram distribuídas clandestinamente para organizar a oposição ao xá. E, mesmo no Brasil, tivemos o movimento das Diretas Já sem Twitter ou Facebook.

10h45 – Notícia e Comentário Al Jazeera – A polícia do Egito prendeu seis jornalistas da Al Jazeera. Também fechou alguns escritórios da rede de TV e proibiu a exibição no território egípcio. Com um canal em árabe e outro em inglês, a Al Jazeera é transmitida em todos os países árabes e diversos outros ao redor do mundo, incluindo a Argentina e Israel. Na maior parte dos EUA, não dá para ter a rede de TV do Qatar no cabo. Tampouco no Brasil. O Al Jazeera International possui uma série de jornalistas que atuavam no passado na CNN e na BBC.  Durante a Guerra de Gaza, muitos israelenses acompanhavam os acontecimentos através deste canal, que era um dos poucos com repórteres baseados dentro do território palestino controlado pelo Hamas. No Egito, a cobertura do canal em inglês da rede de TV do Qatar também superou a CNN.

10h30 Comentário “As mudanças que já aconteceram no Egito”– O levante da população egípcia já transformou o país, apesar de ainda não ter provocado o fim do regime e tampouco a queda de Mubarak. Desde a semana passada, os egípcios podem protestar. Antes, contra o governo, era praticamente impossível. E, além disso, o Egito finalmente tem um vice-presidente, Omar Suleiman. Mubarak nunca havia nomeado ninguém para o cargo, lembrando que ele próprio era vice de Anwar Sadat e este de Gamal Abdel Nasser.

10h10 – Notícia – Oposição e mega protesto – A oposição está organizando mais um mega protesta contra Mubarak . O temor dos opositores é de que seja perdido o “timing” para remover o presidente. E o líder egípcio aposta na outra direção. Contra ele, o cenário financeiro no Egito tende a se deteriorar, com investidores retirando dinheiro do país. Além disso, o turismo, importante fonte de renda para os egípcios, foi interrompido

9h45 – Análise – “Cenários possíveis” – Há quatro cenários possíveis, de acordo com a consultoria de risco político Stratfor. No primeiro, o regime consegue sobreviver, ainda que sem Mubarak. No segundo, são convocadas eleições e um candidato moderado como Mohammad El Baradei vence. No terceiro, também com fim do regime e votação, a Irmandade Muçulmana conquista a vitória. E, no último, o Egito caminha para um caos político.

9h30 – O Egito anunciou a formação de um novo gabinete ministerial. Foram substituídos os ministros das Finanças e do Interior. Os bancos continuaram fechados por mais um dia. No mercado financeiro, há preocupação com a crise no Egito. As manifestações continuavam ontem no Cairo

2h35 – O dia começa no Cairo com centenas de manifestantes ainda acampados na praça Midan al Tahrir. Alguns dividem comida com os soldados. A polícia voltaria às ruas, dois dias depois de a segurança ter ficado apenas nas mãos do Exército. Os policiais vem sendo acusados de saques, vandalismo e de ter libertado prisioneiros para sabotar o trabalho dos militares. No Egito, os policiais são impopulares, enquanto o Exército desfruta de imagem positiva. Existe o temor de choques entre os dois lados. O presidente Hosni Mubarak torce para que as manifestações diminuam e ele consiga se manter no poder. Os EUA trabalham com o cenário pós-Mubarak. Aos poucos, o Nobel da Paz Mohammad El Baradei cresce como candidato de consenso da oposição

2h30 – Análise – De acordo com Hani Sabra, especialista em Oriente Médio da Eurasia, o novo vice-presidente Omar Suleiman, que chefiava o serviço de inteligência, e o novo premiê, Ahmed Shafik, que comandou a Força Aérea, “provavelmente tentarão facilitar uma saída ordenada de Mubarak de seu cargo em um esforço para que o Egito tenha um destino similar ao da Turquia nos anos 1980 e 1990, com representação democrática, mas com influência limitada dos radicais islâmicos”.

Na época, a Turquia vivia uma ditadura militar e se redemocratizou. Esta saída para o Egito vem sendo trabalhada pelo comando militar egípcio conjuntamente com os EUA, segundo a Stratfor. Mas existem diferenças. A Turquia possuía um histórico de democracia anterior aos regimes militares. O Egito, não. Na Turquia tampouco havia uma organização islâmica poderosa como a Irmandade.

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