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Quais os dez motivos para um muçulmano do Ocidente integrar o ISIS?

gustavochacra

18 de agosto de 2015 | 12h12

Uma série de órgãos de imprensa no mundo, como o New York Times hoje, têm publicado reportagens sobre adolescentes e jovens muçulmanos do Ocidente que abandonam suas vidas, famílias e liberdades para irem viver nas áreas controladas pelo ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) no Iraque e na Síria.

Estes jovens fazem o caminho inverso de seus pais e avós, que imigraram para o Ocidente em busca de uma vida melhor. A decisão de ir viver em meio à guerra e ao radicalismo religioso chama mais a atenção no caso das mulheres, pois certamente elas terão menos liberdade nas áreas do ISIS do que possuem em Londres, Detroit, Bruxelas ou Paris.

Mais interessante, muçulmanos do Líbano, que é uma nação árabe e vizinha à Síria, raramente integram o ISIS. Ao contrário, eles lutam contra o grupo terrorista, independentemente de serem xiitas ou sunitas – sem esquecer, claro, dos cristãos libaneses.

Por que, então, estes jovens muçulmanos do Ocidente decidem abandonar tudo para irem viver no pior lugar do mundo – as áreas controladas pelo ISIS?

 1. Primeiro, porque eles idealizam as áreas do ISIS. Por este motivo, alguém de Beirute, que conhece bem o cenário sírio, não irá integrar o grupo pois sabe bem da selvageria. Já alguém de Londres, sem a menor noção do que sejam estes territórios, viaja imaginando que irá para um conto de fadas, tipo um Harry Potter extremista islâmico, com seu ministério da Magia

 2. Em segundo lugar, pela rebeldia da juventude. No passado, pessoas de toda a Europa e até mesmo dos EUA foram lutar na Guerra Civil da Espanha. Hoje, muçulmanos sunitas de diferentes partes do mundo vão integrar o ISIS para lutar contra o regime de Bashar al Assad, contra os EUA, contra os xiitas do Irã, do Hezbollah e do Iraque e contra a Rússia

 3. Terceiro, porque entre alguns jovens muçulmanos em lugares como Londres ser religioso virou “cool”. Moda, literalmente. Exatamente o oposto de décadas atrás, quando os jovens muçulmanos queriam se ocidentalizar ao máximo. Agora é melhor ter a barba longa, rezar cinco vezes ao dia e recitar o Alcorão e defender a jihad do que ir jogar bola como o muçulmano Zidane

 4. Quarto, a Arábia Saudita difundiu uma ideologia extremista entre os muçulmanos sunitas a partir do final da década de 1970. Nos anos seguintes, já víamos os jihadistas no Afeganistão para lutar contra os soviéticos. Hoje vemos radicais sunitas em sociedades antes relativamente laicas, como o Egito, Síria, Líbia e Tunísia, além de países onde os muçulmanos buscavam se integrar na Europa

 5. Quinto, estes jovens muçulmanos se sentem alvos de islamofobia no Ocidente. Discursos islamofóbicos (anti-Islã) de fascistas no Ocidente fortalecem o discurso islamofascista (e vice-versa)

 6. Sexto, as redes sociais permitem que jovens de Londres possam se conectar com outros em Raqaa. Há páginas no Facebook, contas no Twitter, Instagram, Snapchat que alimentam a propaganda pró-ISIS

 7. Sétimo, estes jovens muçulmanos sunitas veem imagens do regime de Assad e do Hezbollah matando jovens sunitas e avaliam que o ISIS é a única forma de combater o regime laico sírio e o grupo xiita libanês. Para eles, o impacto dos ataques de Assad ou do Hezbollah contra os sunitas é o mesmo para um americano vendo um cristão ser decapitado

 8. Oitavo, os amigos. As pessoas que cabandonem tudo para irem integrar o ISIS costumam seguir amigos, muitas vezes mais carismáticos ou líderes

 9. Nono, o islamismo sunita tem uma estrutura similar ao cristianismo evangélico, com diferentes centros de poder. Não há um líder máximo. É diferente do islamismo xiita, que possui um clero mais parecido com o catolicismo

 10. Décimo, a incompetência de autoridades ocidentais. Afinal, como três meninas de 16 anos de Londres conseguem embarcar em um avião para a Turquia? Convenhamos, com todos os defeitos, isso não aconteceria nem mesmo no Brasil

 Antes de terminar, que fique claro, os jovens muçulmanos no Ocidente que foram integrar o ISIS somam cerca de 4 mil, sendo 500 mulheres. Este valor é uma fração inferior a 1% do total de jovens muçulmanos no Ocidente, que alcança dezenas de milhões. Certamente, há mais jovens muçulmanos viciados em heroína, jogando futebol profissionalmente, em escolas de medicina ou trabalhando em bancos de investimento do que integrando o ISIS para lutar contra Assad

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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