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Qual a diferença do Brasil para a Síria e Ucrânia?

gustavochacra

18 de março de 2014 | 19h11

Antes de comecar, gostaria de pedir desculpas por possíveis erros ortográficos. Estou de férias e escrevo de um computador com teclado antigo

Nós brasileiros temos dificuldade algumas vezes para entender o motivo de alguns lugares do mundo terem tantos conflitos. Mas o Brasil possui uma enorme vantagem. Não enfrentamos nenhum problema fronteiriço relevante. Todas as cidades brasileiras usam o português como principal língua. Nenhum município dentro do país usa o espanhol como  idioma. E nenhuma vila ou metrópole nos nossos vizinhos adota o português, apesar de nas regiões fronteiriças as pessoas serem bilingues.

Na Rússia, Ucrânia, Líbano e Síria, é diferente. Até a Primeira Guerra em 1914, a maior parte do mundo era dividida em impérios, como o Otomano, Russo, Frances, Britanico, Austro-Hungaro e Chines. A noção de nação era inexistente ou mais tênue.  Quando alguns impérios, como o Otomano e o Austro-Hungaro, entraram em colapso, fronteiras emergiram juntando diferentes povos ou separando pessoas com a mesma identidade. Não por maldade, mas porque nao havia como separar algumas religiões e povos que falavam línguas distintas.

Pegue o Libano. Nao existe, no país, nenhuma cidade ou vila com apenas uma religião. Em Rachaya, dos meus avos, há cristãos e drusos, por exemplo. Todos falam árabe. Neste sentido, nao ha um problema. Mas os contrastes sectários são enormes.

Na Ucrânia, por sua vez, a questão maior seria a língua do que a religião – quase todos são ortodoxos, a não ser por algums minorias, embora haja diferenças sobre qual patriarcado seguir (Kiev ou Moscou). O problema, para eles, seria a diferença de idioma (russo e ucraniano) e a histório de domínio ou não da Rússia, produzindo duas identidades rivais.

Claro, não necessariamente, pessoas de religião, idioma ou etnia diferente travam conflitos, embora mesmo na Belgica (valões e flamengos) e Canadá (francófonos e anglófonos) tenham divisões. Na Síria, cristãos, alauitas e sunitas viviam bem até fevereiro de 2011. Pelo menos, nao se matavam. Hoje se matam. No Líbano, se mataram entre 1975 e 90. E também em outros periodos, como em 1860. Em outros momentos, vivem bem. A Crimeia, por sua vez, aparentava estabilidade ate dois meses atras. O que mudou?

Basicamente, em momentos de crise, lideranças politicas costumam exarcebar identidades, sejam elas sectárias, étnicas ou linguisticas. As pessoas se apegam a estas questões. Os sírios, que independentemente da religião diziam ser acima de tudo árabes ate 2011, passaram a se identificar como cristaos, sunitas e alauitas. Viraram um Líbano, mas os libaneses tem na sua identidade diferença religiosa, presente até na hora de poder ser presidente (precisa ser cristão), premiê (precisa ser muçulmano sunita) ou presidente do Parlamento (precisa ser muçulmano xiita). Na Ucrânia, o mesmo ocorre com russos e ucranianos – veja a medida, depois revertida, de eliminar o russo como idioma oficial.

Os vizinhos, lementavelmente, se tornam inimigos. E demora muito tempo para voltarem a ser vizinhos novamente. Uma nova balança de poder precisa emergir. Tanto na Síria como na Ucrânia, ainda estamos distantes. Os libaneses, que alcancaram o equilíbrio 24 anos atras, correm o risco de ver um colapso. A ex-Igugoslávia, aos poucos se estabiliza depois da sanguinária década de 1990.

O Brasil, Venezuela e Argentina são imunes a estes problemas. Mas não a outros, como ver os policiais arrastando uma trabalhadora nas ruas do Rio, em uma cena difícil de imaginar mesmo em Bagda, Aleppo ou Cabul.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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