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Qual a diferença entre a Rússia bombardear Aleppo e os EUA, Mosul?

gustavochacra

28 de março de 2017 | 10h36

Quando a Rússia e o regime de Bashar al Assad bombardeavam terroristas jihadistas em Aleppo, matando também muitos civis nestes ataques, havia comoção internacional e condenações a Moscou e às forças sírias. Quando os EUA e as forças Iraquianas bombardeiam o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, em Mosul, matando também muitos civis, o impacto e a comoção internacionais são bem menores.

Por que esta diferença? Primeiro, porque em Aleppo quem bombardeava era a Rússia e a Síria e, em Mosul, é a coalizão liderada pelos EUA e o Iraque. Isto é, dois regimes autocratas no primeiro caso e uma democracia sólida e outra frágil no segundo caso. Em segundo lugar, porque os terroristas jihadistas em Aleppo eram chamados equivocadamente de “rebeldes”, enquanto os terroristas jihadistas do ISIS são corretamente chamados de terroristas jihadistas. Muitos no Ocidente e em nações como o Brasil imaginavam que eram “defensores da democracia”. Terceiro, porque há sim uma preocupação maior dos americanos do que dos russos em evitar baixas civis.

Esta preocupação dos EUA, no entanto, parece ter diminuído na administração de Donald Trump em relação a Barack Obama no caso do Iraque e da Síria – que fique claro, o governo Obama é acusado de ter sido responsável por centenas de mortes de civis em ações de drones no Yemen e no Paquistão.

Forças iraquianas, inclusive, têm elogiado o engajamento maior dos EUA com Trump no poder. O problema é que este engajamento maior e menor cautela no estabelecimento de regras podem levar a ataques que resultem na morte de dezenas de civis como observamos recentemente em dois ataques na Síria e um no Iraque.

Um dos maiores obstáculos é que o ISIS usa sim civis como escudos humanos, assim como os terroristas jihadistas usavam civis como escudos humanos em Aleppo para culpar Assad e Moscou. A mesma estratégia é usada pelo Hamas na Faixa de Gaza.

Basicamente, não existe “guerra” na qual civis não sejam mortos. Se uma nação decide entrar em um conflito ou realizar uma intervenção militar, automaticamente o governo deste país tem conhecimento de que a ação resultará em morte de civis. Obama tentou estabelecer regras para evitar ao máximo mortes de civis. O mesmo faz Israel em Gaza e, em menor escala, Trump no Iraque e, sim, Assad, na Síria. Mas nunca o sucesso será de 100%.

O dilema é – quer derrotar o ISIS e deixar este grupo terrorista sem território? Se a resposta for sim, há necessidade de uma intervenção militar que resultará na morte de civis. Simplesmente, é realisticamente impossível não morrerem civis nestas operações. Quais as outras alternativas? Não fazer nada é uma delas, mas o ISIS neste caso também mataria civis, como sempre faz. Outra é deixar as forças locais agirem para combater o ISIS, o que também resultará em baixas civis.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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