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Qual a diferença entre o trumpismo e o conservadorismo no Brasil?

gustavochacra

03 de março de 2017 | 11h27

O conservadorismo tem crescido no Brasil ao mesmo tempo que tem mudado nos Estados Unidos. E não necessariamente é a mesma forma de conservadorismo porque os contextos das duas nações são distintos. Ainda assim, vale uma comparação.

Conforme escreve David Brooks, colunista conservador do New York Times, o presidente dos EUA, Donald Trump, em seu discurso de terça, “rejeitou ou ignorou” os três pilares do Partido Republicano nas últimas décadas – conservadorismo fiscal, conservadorismo social e política externa intervencionista.

Primeiro, Trump não defendeu nenhum dos temas sociais que moveram os republicanos até a escolha dele como candidato no ano passado – a oposição ao direito ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a liberdade religiosa para, por exemplo, permitir que um restaurante não aceite realizar um casamento gay por questões religiosas dos donos.

Em segundo lugar, Trump rompeu com a tradição de política externa dos republicanos, ao adotar uma postura isolacionista e soberanista/nacionalista, em vez de ser a polícia global intervencionista, como vimos nos anos de George W. Bush e ainda observamos em senadores republicanos como John McCain.

Por último, Trump rompeu com o conservadorismo fiscal, anunciando aumento dos gastos públicos e cortes nos impostos, o que inevitavelmente levará a um aumento no déficit – algo considerado uma heresia pelo Partido Republicano até 2016. Também defendeu políticas protecionistas, indo contra a tradição do livre comércio dos republicanos.

Estas políticas de Trump o ajudaram sem dúvida a conquistar parte do eleitorado democrata, como os tradicionais trabalhadores sindicalizados de Estados como Michigan e Ohio. Ao mesmo tempo, Trump perdeu parte do eleitorado republicano, embora não necessariamente para Hillary. O problema maior foi o tom em temas como a imigração – no qual ele acentuou um discurso anti-imigrante, beirando a xenofobia, que se instalou no Partido Republicano a partir de 2012 – antes não havia este discurso e Bush era tão ou mais liberal do que Barack Obama na questão da imigração.

No Brasil, porém, o conservadorismo se fortalece não necessariamente na mesma linha do trumpismo, embora alguns conservadores brasileiros se identifiquem como trumpistas. Os movimentos descritos como conservadores brasileiros querem menos gastos do governo e menos impostos – há um trauma com o legado do PT, que deixou o país afundado na atual crise econômica. Neste sentido, estão com os republicanos pré-Trump, mas não os pós-Trump, pois Trump defende algumas políticas econômicas similares às do PT, conforme já mostraram reportagens na imprensa americana.

Em temas sociais, observamos ainda no Brasil uma forte oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo independentemente de a pessoa se identificar mais com a direita ou a esquerda – os brasileiros, a não ser por bolhas em grandes cidades, são conservadores nesta questão. E estes são temas que não interessam muito a Trump, como vimos acima – ele basicamente aceita as decisões da Suprema Corte que legalizou o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O foco nos EUA está nos direitos dos trangêneros,

E não dá para comparar política externa. Como escreveu Clovis Rossi, o Brasil não possui política externa desde que Lula deixou o poder. Não teve com Dilma e não tem com Michel Temer. Além disso, este é um tema marginal para os eleitores brasileiros.

Por último, a imigração não é um ponto de forte debate no Brasil, que foi uma nação que recebeu muitos imigrantes na primeira metade do século 20, mas hoje se tornou um país de emigrantes. Sim, há haitianos, bolivianos e até alguns refugiados sírios. Mas não dá para comparar com o problema dos EUA, onde há 11 milhões de imigrantes sem documentos e outras dezenas de milhões em situação legal.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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