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Qual a importância da renúncia do presidente do Yemen?

gustavochacra

22 de janeiro de 2015 | 18h23

O presidente do Yemen renunciou. E o que interessa isso para um brasileiro? Possivelmente, muitos leitores nem sequer sabem o nome dele. É Abd Rabbuh Mansur Hadi. Ou Hadi, apenas. Foi por anos vice-presidente de Abdullah Saleh, o líder iemenita que unificou o país. Vale lembrar que o Yemen era uma nação dividida até 1994. O norte, comandado por Saleh, era capitalista e com capital em Sanaã. O sul, com capital na cidade portuária de Aden, era comunista.

A unificação do Yemen ocorreu após anos de Guerra Civil, vencida pelo norte. Pesou também o fim da Guerra Fria. Para lutar contra os comunistas do sul, Saleh contou com o apoio de mujahedeens que lutaram contra os soviéticos no Afeganistão. Nesta época, emergia um radicalismo islâmico sunita anti-comunistas. Haviam sido aliados dos EUA.

Vencida a guerra, Saleh se transformou em mais um ditador do mundo árabe. Não era religioso. Longe disso. Até admirava Nasser na juventude, quando incorporou o movimento arabista. O país, porém, nunca foi rico. Tinha um pouco de petróleo. Turistas eram raros, apesar dos visuais fantásticos e de arranha-céus de quase um milênio de idade, na época que Manhattan era dos índios e Dubai era só areia. Claro, sempre tem aquele canadense ou francês explorador, o casal sueco em lua de mel e os estudantes de college dos EUA aprendendo árabe para trabalhar com arqueologia no futuro.

Em 2000, no porto de Aden, os antes mujahedeen já haviam se tornado terroristas, integravam a Al Qaeda e cometeram um atentado contra um porta-aviões dos EUA. No ano seguinte, ocorreu o 11 de Setembro. Os EUA endureceram com Saleh e pediram para ele dar um jeito no terrorismo.

Saleh combatia o terrorismo, mas gostava acima de tudo da mesada. Começou a perceber que, enquanto houvesse ameaça terrorista, a torneira americana não seria fechada. Portanto combatia o terror por um lado e fazia um jogo duplo do outro. É muito comum isso ocorrer ao redor do mundo. Em um determinado momento, membros da Al Qaeda fugiram da prisão.

Chegamos a 2009 e a Al Qaeda na Arábia Saudita estava enfraquecida. Seus membros foram para o Yemen. As ações dos EUA na Iraque no surge também motivaram a ida de alguns. O Yemen “bombava” para a Al Qaeda. E foi fundada a Al Qaeda na Península Arábica. Independente da do Paquistão. Um de seus líderes era o carismático cidadão americano Anwar Al Awalaki que, com seus vídeos no YouTube, atraia jihadistas.

Eles tentaram uns ataques terroristas e fracassaram, em um caso, por incompetência, quando um nigeriano foi dominado por outros passageiros ao tentar explodir um avião que havia aterrissado em Detroit, vindo da Holanda. Em outro, tentaram montar bombas disfarçadas de impressoras e colocar em um voo para Chicago, mas o serviço de inteligência saudita descobriu. Internamente, cometiam seus atentados e o mundo não dava bola.

Ao mesmo tempo, os EUA, sob o comando de Barack Obama, intensificaram a política de bombardeios com Drones. Conseguiram “eliminar”, como se diz no jargão de contraterrorismo, vários líderes da Al Qaeda na Península Arábica. Mas, junto, vários civis foram mortos – recomendo o documentário Dirty Wars do Jeremy Scahill.

A mesada de Saleh, continuava caindo na conta todos os meses. Ele não tinha do que reclamar. Liberava os ataques com Drones e, em troca, recebia dinheiro. Ao mesmo tempo, o líder iemenita tinha duas batalhas paralelas. Uma contra os houthis, no norte do Yemen, e outra contra insurgentes separatistas no sul – não mais comunistas. Uma vez ou outra, também combatia a Al Qaeda.

E quem são estes houthis? Os houthis são uma etnia que segue um braço do islamismo xiita conhecido como ziadismo, em uma tradução livre para o português. Eles governaram o norte do Yemen por mais de mil anos até 1962, embora tenham sido dominados uma série de vezes. Representam um terço da população iemenita. Os outros dois terços são árabes majoritariamente sunitas. Saleh, curiosamente, segue o ziadismo, embora não seja religioso e jamais tenha integrado o movimento houthi – como disse anteriormente, admirava o arabismo.

Em 2011, como sabemos, eclodiu a Primavera Árabe. E, obviamente, também atingiu o Yemen. Os protestos contra Saleh se intensificaram. Em um ataque contra seu palácio, ele ficou gravemente ferido e precisou se tratar na Arábia Saudita. Ainda assim, voltou ao país. No fim daquele ano, Saleh concordou em deixar o poder. Em seu lugar, entrou Hadi, que posteriormente foi eleito presidente sem adversários.

Desde o início, Hadi era enfraquecido. Embora com legitimidade interna e externa, não controlava o país e enfrentava forças paralelas de Saleh, que continuou exercendo influência, o avanço dos houthis, o crescimento da Al Qaeda e dos separatistas no sul.

Em setembro deste ano, os houthis intensificaram as suas ações. Eles não concordavam com o corte em subsídios, com a corrupção e com a proposta de federalização do país. Na quarta, houve um acordo de paz entre os houthis e o governo. Mas os houthis, no fim, não cumpriram a sua parte e mantiveram a pressão para assumir totalmente o poder.

Mas a confusão não acaba agora. Há confrontos em Marib, uma zona tribal sunita rica em petróleo e inimiga dos houthis. É uma das áreas com maior envolvimento da Al Qaeda na Península Arábica. No sul, os movimentos separatistas podem crescer.

O colapso do Yemen pode ter uma série de repercussões. Primeiro, os houthis são patrocinados pelo Irã. A tomada do poder por este grupo deve enfurecer a Arábia Saudita, acirrando a sua Guerra Fria contra o Irã, com os dois países em lados antagônicos no Líbano, Síria, Iraque e Bahrain. A Al Qaeda na Península Arábica pode ampliar seu poder nas zonas tribais, buscando repetir o que seus inimigos do ISIS, também conhecidos como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, fazem em partes da Síria e do Iraque. Os EUA podem perder algumas das suas principais ferramentas na Guerra ao Terror. Desta base, podem intensificar seus ataques terroristas. Lembro que a Al Qaeda na Península Arábica reivindicou o atentado contra o Charlie Hebdo em Paris.

Claro, nada impede que os EUA busquem uma aproximação com os houthis. Os canais de negociação com o Irã estão abertos. Assim como no Iraque e relativamente na Síria, os interesses de americanos e iranianos são semelhantes. Mas o apoio formal dos EUA aos houthis pode irritar a Arábia Saudita, já insatisfeita com as posições de Washington em outras partes do Oriente Médio.

Enfim, esta é a importância da renúncia de Hadi.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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