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Qual a lógica de o Irã não reconhecer Israel?

gustavochacra

05 de maio de 2015 | 11h06

Dois senadores republicanos querem impor uma emenda a uma resolução do Congresso dos EUA exigindo que o Irã reconheça o Estado de Israel para a aprovação dos parlamentares em Washington do acordo que o governo presidente Barack Obama e as outras grandes potências nucleares (Rússia, China, Reino Unido e França), além da Alemanha, estão negociando com o Irã. O problema é que esta atitude pode ter justamente o efeito contrário ao desejado pelos senadores.

Na verdade, o Congresso dos EUA negociou por semanas um acerto com a concordância de democratas e republicanos para, caso haja um acordo assinado pelo presidente Barack Obama com o Irã, este fique sujeito à aprovação dos parlamentares americanos. Para impor esta condição, são necessários dois terços dos votos do Senado – exigindo uma ação bipartidária, quase de consenso.

Caso a emenda dos dois senadores seja colocada no texto, os senadores democratas e muitos republicanos abandonarão o acerto, pois certamente significará o fim das chances de um acordo. Sem este consenso, não haverá dois terços do Senado a favor da resolução e Obama poderá vetá-la. Desta forma, o presidente não precisará da aprovação do Congresso se chegar a um acordo. A pressão sobre ele diminuiria.

Independentemente disso, sem dúvida, seria ótimo o Irã reconhecer Israel dentro das fronteiras pré-1967. Acho que esta deva ter ser uma condição dos EUA para o restabelecimento de relações diplomáticas com os iranianos no futuro. Mas o acordo atual visa a segurança internacional e impedir que o regime de Teerã tenha condições de desenvolver uma bomba atômica em troca do fim das sanções. Não visa o restabelecimento de relações entre os EUA e o Irã. Esta pode até ocorrer em uma segunda etapa.

De qualquer maneira, chama a atenção o Irã ser a única nação do mundo a sequer cogitar reconhecer Israel. No mundo árabe, o Egito e a Jordânia tem acordo de paz com Israel. Alguns tem se aproximado de Israel, como a Tunísia e Omã. Um já negociou abertamente a paz com Israel duas vezes, embora sem sucesso (Síria). Outros países são parceiros geopolíticos de Israel, como a Arábia Saudita. E todos os países árabes dizem que reconheceriam Israel em troca da desocupação dos territórios ocupados em 1967 – além da Faixa de Gaza, também a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Colinas do Golã, Ghajjar e as Fazendas de Shebaa.

O regime de Teerã, que é persa, porém, nunca delineou quais as suas condições para reconhecer Israel. Nem mesmo se houvesse a desocupação dos territórios palestinos. Mais interessante, diferentemente da Síria, que de fato possui disputas territoriais com os israelenses, os iranianos não têm, em teoria, nenhum disputa com Israel. São países separados pelo território sírio e pelo iraquiano (e com o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, no meio).

Esta questão deve sim ser debatida, mas não como condição para o acordo nuclear neste momento. No futuro, se existisse lógica no mundo, o Irã e Israel teriam acordo de paz e seriam ótimos parceiros comerciais. Israel reconhece o Irã, mas o Irã não reconhece Israel.

Lembro, no entanto, que todos os líderes de Israel desde os anos 1990 reconheciam o direito aos palestinos terem um Estado. Isso mudou neste ano, quando o premiê Benjamin Netanyahu disse que não haverá a criação de um Estado palestino enquanto ele estiver no poder. Posteriormente, ele voltou atrás na declaração. Israel e Palestina são países reconhecidos pela ONU. O primeiro, como membro da entidade; o segundo, como Estado não-membro.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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