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Qual deve ser o futuro da Guerra da Síria?

gustavochacra

11 de maio de 2015 | 12h19

A Guerra da Síria mudou de rumo nos últimos meses. Assad, visto como o vitorioso incontestável no começo deste ano, se enfraqueceu em partes do país. Abaixo, fiz um esquema de perguntas e respostas para entender as mudanças. Noto que isso não significa a queda do regime. Apenas indica que o viés de vitória de Assad no médio prazo foi substituído por um viés de derrota. Ainda assim, o cenário mais provável permanece o de “Três Sírias” – uma controlada pelo regime e apoiada pelo Irã, Hezbollah e Rússia, uma controlada pelos rebeldes comandados pela Al Qaeda e apoiada pela Turquia e Arábia Saudita e uma terceira controlada pelo ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Atenção também para o conflito e as conspirações envolvendo os líderes da inteligência síria em Damasco.

Assad não era o vitorioso no começo deste ano?

Até o começo deste ano, Bashar al Assad vinha conquistando vitórias e se solidificando no poder. Controlava os principais centros populacionais do país e a expectativa era de que suas forças retomassem Aleppo, ainda dividida. Os EUA passaram a dar indicações de que tolerariam o líder sírio no poder. Assad passou a ser visto como a “menos grave” das alternativas. O Ocidente havia deixado de se focar na queda do regime para priorizar a guerra contra o ISIS. O Irã, principal base de apoio de Assad no exterior, avançava em suas negociações com os EUA, podendo mudar o mapa geopolítico na região, favorecendo o regime. Aos poucos, a vida retornava à normalidade em Damasco. Em uma ofensiva de PR, Assad concedia entrevistas para uma série de jornalistas internacionais.

O que mudou para Assad começar a sofrer derrotas?

A chegada do rei Salman ao poder na Arábia Saudita. Diferentemente de seu irmão e antecessor rei Abdullah, o novo monarca saudita adotou uma postura de “falcão”, implementando uma agenda com os interesses sauditas, batendo de frente com os interesses do Irã e mesmo os americanos. As ações no Yemen são a mais clara sinalização de sua nova política, com a Arábia Saudita se envolvendo diretamente em um conflito civil.

Na Síria, os sauditas decidiram apoiar abertamente os rebeldes em coordenação com a Turquia e o Qatar. Comandados pela Frente Nusrah (Al Qaeda) e outras milícias ultra-extremistas, estes rebeldes (ou terroristas) passaram a usar o nome de Jeysh al Fatah e conseguiram reverter o cenário no conflito. Em algumas áreas da Síria, como em Idlib, perto da fronteira com a Turquia, as forças do regime foram derrotadas, dando um novo fôlego para os rebeldes. Daara pode ser a próxima cidade.

 Mas o regime continua forte em Damasco e outras grandes cidades?

Em Damasco, a sensação de segurança do começo do ano aparentemente se reduziu. Mas ainda não está na iminência de uma queda. O regime controla relativamente bem a capital, mas não os subúrbios. Cenário similar pode ser observado em Hama e Homs. Na costa Mediterrânea, as forças de Assad, com o apoio de milícias aliadas, seguem fortes. Um problema talvez seja a tomada de Idlib, que deixa os rebeldes mais próximas de Latakia, no Mediterrâneo, principal bastião do regime. Aleppo permanece dividida e há um temor de avanço dos rebeldes, algo quase impensável meses atrás. Outro risco seria o isolamento da cidade. Existe um desespero de cristãos em Aleppo, que são defensores do regime. Eles temem ser alvo de massacres dos rebeldes, que são sunitas

O que é a batalha de Qalamoun?

A batalha de Qalamoun tem importância porque esta área se localiza na fronteira com o Líbano, na faixa unindo a costa Mediterrânea a Damasco. O Hezbollah, e não o Exército sírio, estará na linha de frente. O grupo libanês tem conseguido vitórias nos últimos dias. Mas enfrentará mais uma vez um custo político dentro do Líbano e uma crescente insatisfação da sociedade xiita libanesa e também de seus aliados cristãos – os sunitas libaneses e alguns grupos cristãos são contra a intervenção do grupo.

Uma vitória em Qalamoun servirá para o regime reverter um pouco este viés pró-rebeldes, especialmente entre a população síria em áreas do regime. Por outro lado, cresce a sensação de que, sem o Hezbollah e o Irã, o regime seria facilmente derrotado.

Por que o Hezbollah e o Irã não lutam em Idlib e Aleppo?

Porque o grupo libanês e o regime de Teerã têm priorizam áreas que afetam seus interesses. Basicamente, Damasco e as outras regiões próximas à fronteira com o Líbano. Estas áreas são usadas logisticamente pelo Irã para armar o Hezbollah, que ainda serve como principal arma de dissuasão do regime de Teerã contra Israel. Sem a bomba atômica, os iranianos ainda têm os mísseis do Hezbollah apontados contra Tel Aviv para evitar uma ação militar israelense. Aleppo e Idlib, por outro lado, não possuem tanta importância para esta estratégia.

O ISIS está da qual lado?

O ISIS é inimigo de Assad. No passado recente, também era inimigo da Frente Nusrah (Al Qaeda). Na região de Raqaa, ainda há confrontos. Mas, em focos de insurgência próximos a Damasco, as duas organizações têm agido em coordenação contra as forças de Assad.

Há relatos de tentativa de golpe em Damasco?

Sim, mas não dá para saber o que é conspiração e o que é verdade. Sabemos apenas que houve um confronto aberto entre as forças leais ao general Rafiq Shedeh, chefe da inteligência militar, e Rustum Ghazaleh, chefe da segurança política. No fim, Ghazaleh morreu. Nos últimos dias, surgiu a informação de que Ali Mamlouk, chefe da Agência de Segurança Nacional, foi colocado em prisão domiciliar depois de coordenar com a Turquia um golpe para derrubar Assad e colocar o tio do líder sírio, Rifaat al-Assad, atualmente no exílio, no poder em Damasco. Segundo relatos, haveria uma insatisfação grande em certos braços do regime com a força do Irã e do Hezbollah nas decisões de Assad.

Qual deve ser o resultado?

Como escrito acima, a tendência é de os rebeldes controlarem mais áreas. Mas será difícil superarem o Hezbollah e as forças de Assad, com o apoio do Irã, em áreas com maior importância para regime sírio e para Teerã. O ISIS, em uma área distante, seguirá controlando a região fronteiriça com o Iraque em Raqaa. Resumindo, o cenário mais provável o de “Três Sírias” –

a) uma controlada pelo regime e apoiada pelo Irã, Hezbollah e Rússia, localizada entre Damasco e a Costa Mediterrânea

b) uma controlada pelos rebeldes comandados pela Al Qaeda e apoiada pela Turquia e Arábia Saudita, localizada na fronteira com a Turquia

c) uma terceira controlada pelo ISIS, na fronteira com o Iraque

Obs. os curdos seguirão em suas áreas autônomas

 Tem chance de a “Síria” do regime não ter Assad no comando?

Sim, mas explicarei em outro post.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires
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