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Qual foi o erro do Papa Francisco na viagem à Terra Santa? Não ir a Nazaré

gustavochacra

26 Maio 2014 | 11h50

O Papa acertou diplomaticamente na viagem para a Terra Santa, o que inclui Israel e a Palestina – o Vaticano, o Brasil e a ONU reconhecem o Estado e, portanto, não há motivos para não usar esta denominação, como Francisco corretamente o fez.

Judeus e Muçulmanos

 No lado judaico, visitou o Muro das Lamentações, deixou uma coroa de flores no túmulo de Theodor Herzl e se reuniu com o premiê Benjamin Netanyahu e o presidente Shimon Peres. No lado palestino, o que inclui cristãos e muçulmanos, se reuniu com refugiados, rezou na Igreja da Natividade em Belém, esteve na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém e também se reuniu com o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

O Patriarca Ortodoxo

Para completar, Francisco ainda teve o encontro ecumênico com o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu. Aliás, este era o objetivo da viagem. E, neste ponto, não custa falar dos cristãos que habitam historicamente a Terra Santa e entender qual foi o erro do papa na sua visita à região.

Quem são os cristãos da Terra Santa?

A maioria dos cristãos residentes na Terra Santa se identifica como palestinos-árabes. Isso inclui mesmo os cristãos cidadãos de Israel. As autoridades religiosas locais de todas as denominações cristãs também se identificam com os palestinos. Os cristãos historicamente estão na vanguarda dos movimentos pela independência da Palestina. Atualmente, a prefeita de Ramallah, sede da Autoridade Palestina, é cristã. Belém também tem uma prefeita mulher, palestina e cristã. Yasser Arafat era casado com uma cristã e parte de seu gabinete era composto por cristãos. O maior intelectual da história palestina era o cristão Edward Said. Até mesmo o fundador de um dos primeiros grupos classificados como terrorista por Israel era o cristão George Habash.

Curiosamente, são raros os católicos-romanos na Palestina. Há minorias grego-católicas (melquita) e maronita – ambas respeitam a autoridade papal, mas possuem patriarcas próprios e ritos diferentes. Mas a maior parte dos cristãos palestinos e também dos cristãos árabes de Israel é ortodoxa Para eles, o Patriarca Bartolomeu, e não o Papa Francisco, é a maior autoridade religiosa, embora respeitem a figura do líder católico.

O Erro de Francisco

O papa, na sua visita, tinha, mais do que servir de “mediador” da paz entre israelenses e palestinos como nações, fazer uma peregrinação cristã. O Vaticano deixou isso claro o tempo todo. Neste sentido, foi importante ir à Igreja da Natividade em Belém e à do Santo Sepulcro em Jerusalém. Também foi importante orar no muro construído por Israel para evitar atentados terroristas palestinos, mas que ao mesmo tempo tem o efeito de confiscar terras de palestinos, incluindo os cristãos, e o de impedir de cristãos de Belém irem a Jerusalém rezar e vice-versa.

Mas foi uma pena e um grave erro Francisco não ter ido a Nazaré.

Esta cidade árabe-israelense, onde cristãos e muçulmanos convivem pacificamente e não há problemas com judeus, obviamente lamentou muito a ausência do papa. Não acho que Francisco deveria ter deixado de lado visitas a lugares sagrados para judeus e muçulmanos. Mas me espanta que ele não pudesse ficar algumas horas a mais para visitar Nazaré. O que o líder católico tinha de tão urgente em Roma para voltar? Além disso, Nazaré seria o melhor exemplo de que cristãos, muçulmanos e judeus podem ser vizinhos.

Obs. Além dos cristãos nativos, há uma população de cristãos da ex-União Soviética. Eles também são ortodoxos e não católicos

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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