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Qual lógica em proibir computadores e tablets em voos do Oriente Médio?

gustavochacra

22 de março de 2017 | 11h41

Os EUA proibiram que passageiros levem computadores, tablets e aparelhos maiores do que celulares na cabine do avião em voos vindos da Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Egito, Marrocos, Turquia e Emirados Árabes Unidos. Já o Reino Unido proibiu em voos da Tunísia, Líbano, Arábia Saudita, Jordânia, Egito e Turquia. O argumento apresentado é o de motivos de segurança.

Pode fazer sentido, sem dúvida, que este seja o motivo. Os serviços de inteligência britânico e americano talvez possuam informações indicando algum plano de ataque terrorista. Mas isso não explica, em primeiro lugar, como escrevi ontem, o motivo de celulares ainda poderem ser levados a bordo. Os celulares em teoria, seguindo a lógica apresentada, também poderia ser usado como bomba, ainda que menor do que um iPad. O celular, além disso, é um computador e com capacidade de ser usado por hackers.

Em segundo lugar, os computadores e tablets podem ser usados como bomba mesmo no compartimento de bagagens. Neste caso, há o argumento de que podem ser mais bem investigados quando despachados com a bagagem. Certo, mas por que então não aplicam estas mesmas regras para a pessoa que queira leva-los a bordo? Aliás, é simples. Basta pedir para o passageiro ligar o computador – o que, em alguns casos, já ocorre.

Terceiro, aeroportos como os dos Emirados Árabes e do Qatar estão entre os mais seguros do mundo. Certamente, mais seguros do que o de muitas nações não incluídas na lista americana. Curiosamente, não estão na lista britânica – o Líbano não está na americana porque não há voos de Beirute para os EUA.

Por último, convenhamos, caso um terrorista queira cometer um atentado usando um computador-bomba a bordo de um avião, e não tenho dúvida de que muitos queiram e haja informações neste sentido, basta ele fazer uma escala. Por exemplo, embarca no Cairo para Paris com o computador a bordo e, da capital francesa, para Nova York ou Londres. Neste caso, o “computador-bomba” não precisará ser despachado e o atentado ocorreria de qualquer maneira.

Há três argumentos sobre a decisão de os EUA e o Reino Unido terem implementado esta política. A primeira seria islamofobia. Não concordo. Afinal, engloba não apenas a administração Trump, onde de fato há islamofóbicos, como também o governo do Reino Unido, onde não há figuras abertamente anti-muçulmanas. O Canadá também estuda medidas similares.

O segundo argumento seria para de alguma forma enfraquecer as poderosas companhias aéreas do mundo árabe, em especial a Emirates, a Qatar Airways, Turkish e a Etihad. Estas gigantes têm crescido cada vez mais e os aeroportos do Qatar, de Dubai, de Abu Dhabi e de Istambul são hubs internacionais. As companhias aéreas americanas, com uma certa razão, reclamam do apoio financeiro estatal às rivais no golfo.

O terceiro, claro, seria o oficial, de motivos de segurança.

Uma das consequências mais graves alertadas aqui nos EUA é o risco para jornalistas e ativistas de direitos humanos, por exemplo. Afinal, seus computadores e informações importantes poderão ser acessadas pela segurança destes aeroportos. Uma alternativa já apresentada por alguns é a de deixar as informações em uma nuvem e levar um computador barato para ser despachado.

Viajar de avião está cada vez mais insuportável. Não duvido que estas determinações em breve sejam expandidas para todos os voos. E segue a minha eterna dúvida – por que não posso levar uma pasta de dente em um voo de Nova York para Washington, mas não preciso passar por detector de metal ou submeter minha bagagem a inspeções se viajar de trem entre as duas cidades?

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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